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terça-feira, 16 de julho de 2013

Ainda fugindo, baby!




Poizé... vamos ver se conseguimos terminar este assunto.

Já que agora sabemos tudo sobre contraponto, imitação, cânone, transposição, etc, ficou mais fácil entendermos o que é uma fuga: é uma peça musical onde um tema é apresentado, seguido por uma resposta em outra voz, utilizando o mesmo tema, mas transposto. Essa alternância entre tema (também chamado sujeito) e resposta continua até que todas as vozes tenham entrado. Após essa apresentação do tema nas diversas vozes segue-se um trecho chamado episódio, onde elementos rítmicos e/ou melódicos do tema são desenvolvidos, transpostos, modificados, etc. Após esse primeiro episódio vem uma reapresentação do tema (e respostas)  nas diferentes vozes (todas ou não), em outra tonalidade, seguida por mais um episódio. Essa duplinha reapresentação+episódio pode continuar por quantas vezes for, até a ultima reapresentação (chamada reexposição), onde o tema (com ou sem resposta) aparece pela última vez, de volta à tonalidade inicial, para finalizar a fuga. Após a reexposição também pode haver mais um curto episódio ou uma coda (literalmente, rabo). Resumindo:

Apresentação - Episódio 1 - Reapresentação 1 - Episódio 2 - Reapresentação 2 - etc... - Reexposição 

Simples, não? Então, vamos complicar um pouco:

O tema (sujeito) pode ser seguido por um contrassujeito (na mesma voz que apresentou o tema, enquanto a segunda voz apresenta a resposta), o qual funciona como um "tema-acessório". Geralmente esse contrassujeito será repetido sempre que o tema for reapresentado (essa é a regra, mas o que não faltam são exceções - nada é obrigatório em música!). Pode também haver mais de um contrassujeito, que aparecerão juntos ou alternadamente. Pode ser, por exemplo:

Primeira voz
SUJEITO
CONTRASSUJEITO 1
CONTRASSUJEITO 2

Segunda voz

RESPOSTA
CONTRASSUJEITO 1
CONTRASSUJEITO 2
Terceira
voz


SUJEITO
CONTRASSUJEITO 1

ou:

Primeira voz
SUJEITO
CONTRASSUJEITO 1
MATERIAL LIVRE

Segunda voz

RESPOSTA
CONTRASSUJEITO 2
MATERIAL LIVRE
Terceira
voz


SUJEITO
CONTRASSUJEITO 1


Já deu para se notar que a fuga não é uma forma fixa. Muitos nem a consideram uma forma, mas apenas uma textura ou maneira de compor, pois diversos elementos, procedimentos e técnicas podem ou não aparecer. Já vimos que ela pode ter um ou mais contrassujeitos (ou nenhum). Da mesma maneira, ela pode ter mais que um tema, e será chamada de fuga dupla, tripla, etc, dependendo do número de temas. Os diferentes temas podem aparecer juntos desde o início (a primeira voz apresenta o primeiro tema, enquanto a segunda voz apresenta o segundo tema, ao mesmo tempo), ou o segundo tema pode aparecer apenas durante o desenrolar da fuga, e apenas a partir daí os dois temas aparecerão juntos.

Os episódios também não são obrigatórios: há fugas que não têm episódios (ou os episódios são tão pequenos que não têm tempo de adquirirem personalidade própria), e as reapresentações do tema seguem-se sem descanso .

Os sujeitos também podem aparecer acavalados durante as reapresentações ou reexposição: uma voz não terminou de apresentar o tema e a voz seguinte já começa a resposta - isso é conhecido como stretto. Outras vezes, durante as reexposições, os sujeitos podem aparecer incompletos, ou, da mesma maneira como num cânone, os temas podem ser invertidos, aparecer em aumentação ou diminuição, etc...

Em suma: a fuga é uma grande brincadeira sobre o(s) tema(s). Ou uma grande orgia, pensando bem: o sujeito que aparecia embaixo agora aparece em cima; outros sujeitos podem aparecer de ponta-cabeça; quem estava de frente de repente você olha e está de ré; alguns resolvem se acavalar sobre os outros; novos sujeitos podem aparecer já no meio da bagunça, querendo entrar de qualquer maneira, onde couber; alguns vão "crescer" durante a farra, outros vão "diminuir"... Mas, assim como numa orgia - imagino (ainda!) - o que vale é a criatividade (pra não ser enfadonho), e a competência (inventar possibilidades, apenas, não vale: também é preciso fazer direito!).

Vamos aos exemplos? Primeiro, uma orgia sem-graça - aliás, é um "papai-e-mamãe" a 3 vozes muito do bobinho - do Telemann:


E uma muito melhor, a 3 vozes, em sol menor, com contrassujeito, do mestre dos mestres da Fuga, J. S. Bach. O autor do vídeo explica novamente tudo que eu já expliquei - se alguém ainda não entendeu, tem mais uma chance!:


E outra a 4 vozes, em dó maior, cheia de strettos e nenhum episódio, também do Bach - notem que, na apresentação do tema a sequência é um pouco alterada (sujeito, resposta, resposta, sujeito):


O Handel também era um mestre da fuga, principalmente vocais, e muitos trechos de seus oratórios estão entre os maiores exemplos do gênero, como "And we shall purify", do Messias:


Apesar de Handel e Bach, nem só de Barroco vive a fuga. Essa "maneira de se compor" nunca saiu da moda, na verdade, e desde então muitos compositores têm sido seduzidos por suas possibilidades e pela vontade/necessidade de provar que são capazes de escrever nessa "forma" que é um grande teste de competência contrapontística.

Como era de se esperar, o nosso amigo W. A. Mozart não era muito ruizinho na fuga, não!, e aproveitaremos o Kyrie de sua Missa de Requiem para exemplificar fuga dupla (um tema para Kyrie eleison e outro para Christe eleison, ao mesmo tempo). A partitura está andando mais rapidamente que o som, mas se alguém se incomodar, é só fechar os olhos e aproveitar!:


Não vou nem falar na fuga da sonata Hammerkavier, do Beethoven, pois tenho mais o que fazer e seria necessário escrever todo um livro só para tratar dessa fuga estrondosamente gigantesca e complexa e espetacular e difícil e maravilhosa! Uma fuga titânica do Brahms, das Variações e Fuga sobre um tema de Handel, já dará uma ideia excelente daquilo que um bom compositor, depois dos mestres barrocos, consegue fazer com a "forma", e também serve como um exemplo de aumentação (é fácil descobrir onde foi que "aumentou"):


Outro exemplo de competência técnica é o Mendelssohn. Nessa fuga aí embaixo vai aparecer inversão (tema e reposta surgem de "ponta-cabeça" no desenvolvimento da fuga - aos 2:48 do vídeo). Para complicar ainda mais, aos 3:39 começa um stretto, onde o tema é apresentado na forma invertida, e a resposta, na forma original. Mas teremos que ouvir também o Prelúdio inicial, pois não consegui vídeo só da fuga:


Mas nem tudo são rosas no mundo da fuga... a "Fuga nº 1 sobre um tema de Bach, em mi bemol maior", da Clara Schumann, é bem meio sem-gracinha, eu acho. Voltando à "analorgia": ela (a fuga, e não a Clara) é muito competente, bonita, inteligente, mas falta fogo!:


O Chopin, um de meus favoritos, também não se sai muito bem. Parece que ele passa o tempo todo olhando para o próprio umbigo e esquece de se divertir. Nem sei por que ele tentou escrever uma fuga... Não tem nada a ver com seu talento contrapontístico, que é de um tipo completamente diferente do talento "espacial-matemático" necessário para um "fugueteiro":


Mas a fuga seguinte, do Prelúdio, Coral e Fuga, do César Franck é linda! A fuga propriamente dita só começa ao 1:56, após uma grande introdução:


E agora uma fuga magnífica, em mi menor, do Shostakovich (a nº 4 de seus 24 Prelúdios e Fugas), com 3 contrassujeitos e 2 temas, sendo que o segundo tema só aparece quando a festa já está no auge!:


Essa aí de cima é linda, sem dúvida, mas minha favorita dentre as 24 é a nº 1, em dó maior. É muito menos espetacular, mas muito expressiva em sua aparente simplicidade. No vídeo abaixo a fuga está toda analisada, com seu sujeito e contrassujeitos bem explicadinhos:


Depois de vê-la explicada vale a pena ouvi-la novamente, agora acompanhada de seu Prelúdio levemente jazzístico (lembram-se do post Da igreja para o cabaré?):


Poderíamos passar a eternidade só ouvindo fugas, mas é bom também saber quando parar e colocar um ponto final (provisório) no assunto! Então, que tal terminarmos com a Fuga sobre um tema de Lady Gaga, de Giovanni Dettori?:


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vamos fugir, baby!



Pediram-me para falar sobre fuga... Socorro! Não dava pra ser outro assunto menos complicado? Quero ver como é que vou explicar a criatura sem ser excessivamente técnico... Vou tentar, mas terei que entrar em "tecnicidades" mais cedo ou mais tarde!

Para entendermos fuga é necessário saber o que é contraponto - viu?, nem comecei, e já surgiu coisa técnica... Mas vamos lá: contraponto é a escrita de diversas vozes independentes, porém simultâneas. Por vozes entenda-se qualquer linha melódica, quer seja ela vocal ou instrumental. Podem ser três "vozes vozes", ou 2 violinos (cada um fazendo uma voz), ou flauta e piano (onde o piano pode fazer várias vozes ao mesmo tempo), etc... Qualquer tipo de combinação é possível, e o número de vozes também pode variar de 2 ao infinito, só dependendo da vontade e da competência do compositor!

Então, se tivermos duas ou mais vozes independentes se desenrolando ao mesmo tempo, vamos ter, necessariamente, contraponto, por mais porca que seja a condução das vozes, e por pior que seja o resultado (condução é simplesmente a maneira como cada uma das vozes se desenvolve).

Um exemplo de contraponto? Uma das Invenções a 2 Vozes, do J. S. Bach (só 2 vozes, por enquanto, pra não complicar muito!):


Um elemento indispensável numa fuga é imitação. No vídeo acima, quando a segunda voz começa ela repete exatamente o que a primeira voz havia feito antes. Isso, obviamente, é imitação (essa definição não deu muito trabalho!). A característica mais marcante de uma fuga é justamente essa repetição de uma melodia mais ou menos curta (o tema) em diferentes vozes.

Imitações, porém, não são exclusivas da fuga (claro... já deu pra notar, pelo vídeo aí em cima, que uma invenção também pode ser imitativa). Aliás, fuga é apenas uma maneira especial de imitação, segundo regras mais ou menos fixas, que se desenvolveu a partir de outras formas musicais que usavam essa mesma técnica.


Essas outras formas imitativas podiam ser chansons ou madrigais:

Carlo Gesualdo - "Moro, lasso, al mio duolo":
(a partir do compasso 6 começam a aparecer as imitações)

Ou também fantasias:

Johan Jacob Froberger: Fantasia sopra ut, re, mi, fa, sol, la:


Podiam ser ricercari:

Ricercar no 12º modo, de Andrea Gabrieli:


O ricercar é, digamos assim, o irmão mais velho da fuga. Os desenvolvimentos que nele ocorrem irão desembocar diretamente na fuga e, durante o Barroco, os termos ricercar e fuga eram usados meio indistintamente - há ricercari que são indistinguíveis de fugas, como, por exemplo, o Ricercar em dó menor, do Johan Pachelbel:


Uma forma de imitação levada ao extremo é o cânone, em que uma linha melódica INTEIRA é imitada por outras vozes. Um cânone pode ser duplo, triplo, etc, dependendo do número de melodias diferentes (e não de vozes) que são utilizadas. Também pode ser direto ou retrógrado (se a melodia original é respondida em outra voz na ordem direta ou na ordem retrógrada - obviamente!). Também pode ser invertido (ou  também chamado de espelho, por ser "de ponta-cabeça"), o que significa que os intervalos da melodia original são apresentados na direção inversa (ou seja: se a melodia original começasse por dó, ré, mi, fá, a inversão seria dó, si bemol, lá bemol, sol - ao invés de subirmos na escala, descemos - deu pra entender?). Também pode ser cânone por diminuição ou aumentação - se as "respostas" são mais rápidas (diminuição, já que cada nota tem duração menor) ou mais lentas (aumentação, já que as notas duram mais).

A melodia também pode ser transposta para qualquer outra nota (se era dó, ré, mi, fá, altera-se a primeira nota, e toda a melodia é alterada de acordo - para sol, lá, si, dó, por exemplo). Também pode -se utilizar qualquer mistura dessas técnicas diferentes, ao mesmo tempo: um cânone pode ser ao mesmo tempo retrógrado e transposto, digamos.

O "odiento" do Bach, como não podia deixar de ser, tem uma sequência de cânones que dá raiva... Ele pega uma melodiazinha bobinha e constrói 14 cânones a partir dela, de todas as maneiras possíveis. Será difícil, talvez, seguir as estripulias do Bach, mas vale a pena ver e ouvir, e aproveitar para agradecer o trabalho maravilhoso de quem postou o vídeo!:


(Fala sério... dá para acreditar no que esse cara era capaz de fazer???)

Atualização: o autor desse vídeo já excluiu duas vezes esse vídeo do YT. Se o vídeo novamente desaparecer, a link para a página do autor (onde o vídeo permanece) é ESTE.

Esses cânones do Bach podem ser classificados como cânones perpétuos (ou rondellus, ou rota, ou rounds), que é uma forma ainda mais extrema de cânone, pois podem ser executados (logicamente) ad eternum. O cânone "Summer is i-cumin in", do século XIII (anônimo), é um dos exemplos mais famosos de rondellus:


Explicando a confusão aí de cima: as primeiras 4 pautas representam a melodia inteira. Quando a primeira voz acabou de cantar o primeiro compasso (até chegar ao sinal +), a segunda voz entra cantando novamente do início. Quando a segunda voz chegar também ao sinal, a terceira voz entra, e  assim sucessivamente... Geralmente canta-se a melodia sozinha primeiro (para o público entender), e depois, na repetição, as novas vozes começam a entrar como indicado. As duas últimas pautas são os chamados pés, que funcionam como um acompanhamento para a melodia (neste caso, são duas outras vozes independentes que se repetem  sem descanso enquanto durar a música).

Ó só! Esta execução começa pelos pés, depois canta-se a melodia completa, depois só os pés novamente, na sequência canta-se a melodia usando duas vozes (duas "cópias" da melodia simultaneamente), depois só os pés novamente, e, por fim, a melodia é cantada com 4 vozes. Até doze vozes simultâneas são possíveis, se alguém quiser tentar:


Lindo!

O "Frère Jacques" também é um rondellus famoso, porém mais simples que o "Summer":


Por enquanto tá dando para entender, né? Espero que sim, pois o mais complicado ainda está por vir, num próximo post, pra dar tempo de digerirmos este aqui!