Não precisa ficar alarmado! "Fim dos tempos" refere-se tão somente ao final de nossa (quase) interminável jornada, pois o mundo da música clássica, apesar das recorrentes notícias sobre sua morte, ainda não dá sinais de que está acabando: a quantidade de compositores ainda em atividade é alarmante, e, se a música clássica chegar a morrer, será por excesso, e não pela falta!
Da Argentina ao Canadá, de Portugal ao Japão, há tantos, tantos, mas TANTOS compositores em atividade que é humanamente impossível conhecer um zilhonésimo deles! Além disso, a música erudita é, para o grosso da população, tão instigante quanto a Teoria das Cordas: descontando-se os malucos de plantão, o interesse despertado por ambas beira o 0,0000000001%. Ou vai me dizer que você já ouviu falar em Lauri Toivio?
Duvido que muita gente, fora da Finlândia, o conheça, assim como duvido que muita gente conheça Ivan Tcherepnin, apesar de ele ter sido, por várias décadas, professor de música eletrônica em Harvard e, portanto, com mais oportunidades de divulgar seu trabalho:
Se mesmo um compositor de Harvard não tem muita circulação entre os ouvintes, imagina alguém como Eunice Katunda, uma brasileira que, apesar de ter sido professora da Universidade de Brasília e do Conservatório do Rio de Janeiro, e uma das pioneiras da música dodecafônica no Brasil, nem o YouTube conhece!
A música erudita continua viva, mas seus ouvintes, sinto informar, estão desaparecendo, e se restringem a pequenos grupos locais que continuam a prestigiar as esporádicas apresentações em Hamburgo, Colônia, Nova York, e nos festivais do IRCAM. Corrijo-me, portanto: se a música clássica um dia finalmente morrer, não será por falta de compositores, mas sim pela falta de ouvintes.
Se bem que isso pode ser apenas um exercício fútil em futurologia... Talvez daqui a 200 anos, depois que a peneira da história passar, sobre umas duas dúzias de compositores que continuarão (ou começarão) a ser tão ouvidos quanto Stravinsky, pelo menos. Quem viver, ouvirá!
Enquanto a peneira não passa, sobrou para mim fazer a seleção. Comecemos, portanto, pelos "famosos", como o americano John Adams e sua On the Transmigration of Souls, de 2002:
Mais famoso é o inglês Michael Nyman, graças às inúmeras trilhas sonoras de filmes (O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante, O Piano, Gattaca, Fim de Caso, etc). Sua música, assim como a de Kurt Weill, habita a fronteira entre o popular e o erudito, e um de seus ciclos de canções (Six Celan Songs - a partir de poemas de Paul Celan) foi composto e dedicado a Uter Lemper, ela própria moradora dessa zona nebulosa (e "especialista" em Kurt Weill). Aqui apenas a canção número 3, Psalm:
Vou fugir um pouco do assunto e colocar uma das canções mais famosas do Kurt Weill, "Die Moritat von Mackie Messer", da Ópera dos Três Vintêns, só porque eu e todo mundo a adoramos:
Und der Haifisch, der hat Zähne Und der trägt er im Gesicht, Und Macheath, der hat ein Messer Doch das Messer sieht man nicht.
An 'nem schönen blauen Sonntag Liegt ein toter Mann am Strand, Und ein Mensch geht um die Ecke Den man Mackie Messer nennt.
Und Schmul Meier bleibt verschwunden Wie so mancher reiche Mann Und sein Geld hat Mackie Messer Dem man nichts beweisen kann.
Jenny Towler ward gefunden Mit 'nem Messer in der Brust, Und am Kai geht Mackie Messer Der von allem nichts gewußt.
Und das große Feuer in Soho Sieben Kinder und ein Greis - In der Menge Mackie Messer, den Man nicht fragt und der nichts weiß.
Und die minderjährige Witwe Derer Namen jeder weiß, Wachte auf und war geschändet - Mackie, welches war dein Presis?
Denn die einen sind im Dunkeln Und die andern sind im Licht Und man sieht die im Lichte Die im Dunkeln sieht man nicht.
Adoro! Ninguém que ouve essa música sem entender a letra imagina que é uma "Balada a um Assassino": estrofes e mais estrofes descrevendo os crimes de Mackie Messer, que continua impune... (Se alguém quiser providenciar uma tradução do original alemão, mais fiel que as versões em português e inglês que circulam pela Internet, agradeço!).
Mas voltemos aos "fins dos tempos", ouvindo a finlandesa Kaija Saariaho e sua La Passion de Simone, de 2006, baseada na vida e escritos da francesa Simone Weil:
Outro "famoso" é o holandês Luis Andriessen, outro que costuma trabalhar em parceria com Peter Greenaway, como no curta-metragem M is for Man, Music, Mozart, de 1991:
Também dessa época (1992) é Three Heavens and Hells, da americana Meredith Monk, que eu adoro!:
Outro compositor com longa carreira no cinema é o japonês Ryuichi Sakamoto, responsável pela música de O Último Imperador, O Pequeno Buda, Love Is the Devil: Study for a Portrait of Francis Bacon, e muitos outros, além de compor trilhas sonoras para videogames (como Seven Samurai 20XX, para o PlayStation 2). Aqui, um clip de Love Is... :
Muitos compositores atuais - como ja deu para notar - costumam trabalhar com cineastas, mas a Meredith (que, além de compositora, é também cantora, coreógrafa, bailarina e, nas horas vagas, astronauta, costureira e estivadora) deu um passo adiante e resolveu incluir mais uma atividade em seu curriculum, escrevendo e dirigindo o filme Book of Days, além de compor sua trilha sonora:
(Antes havia o filme completo no YouTube, mas sumiu...)
De 1998 é En Écho, do francês Philippe Manoury, para soprano e aparelhos eletrônicos, sobre poemas de Emmanuel Hocquart. Aqui só a primeira canção (são 7, no total), "La Rivière":
la rivière coule sous le feuillage
dégrafe ma robe
dessous regarde je suis nue
porte moi dans cette eau
retourne-moi
glisse ta main
visite mes hanches et ma toison
suis les mouvements de mon ventre
tu emprisonnes mes poignets
tire tire
par tous les os
les bras et les jambes
viens là maintenant
tire doucement ma tête en arrière
caresse-moi
ne t'arrête plus
oui tout vient
tous les parfums de la rivière
regarde-moi
regarde ta Lolita
liée à la taille par l'eau
Recém saída do forno (de 2007, e uma das 1.000 coisas que eu ainda tenho que ver ao vivo), temos a ópera Passion, do francês Pascal Dusapin. Só encontrei pequenos trechos espalhados pelo YT, infelizmente:
De 2008, O Livro do Desassossego, a partir da obra de mesmo nome de Fernando Pessoa, é mais outra obra de um compositor multimidiático, o holandês Michel van der Aa. Aqui, apenas um trecho:
E chega, por hoje! Há música demais no século XXI, e vou precisar gastar longos meses para ouvir coisas novas e decidir o que, na minha opinião, merece aparecer por aqui! Também já ouvimos, em past posts, compositores como Pierre Boulez, Gyorgy Ligeti, Sofia Gubaidulina, Gloria Coates, todos eles ainda em atividade neste início de século, então acho que está de bom tamanho!
Quem quiser futucar por conta própria pode partir desta lista AQUI e garantir meses de diversão, pendurado no YouTube!
Poizé... no past post só ouvimos desgraças, e ficou parecendo que nas décadas de 60 e 70 só havia música "hecatombística". Claro que não é assim, e hoje vamos ouvir obras que não mostram um total descrédito com a raça humana, mesmo quando não são exatamente "felizes". Será também mais uma oportunidade de conhecermos coisas novas (espero!).
O Século XX, como eu já disse, é um ilustre desconhecido da maioria dos ouvintes da música clássica, e quase qualquer coisa que eu colocar aqui será novidade para muita gente - até mesmo para mim, claro, pois a profusão de compositores (no século passado e neste) é tamanha que tornou-se humanamente impossível tentar seguir o que acontece no reino musical. Além do mais, estamos muito próximos dela, cronologicamente falando, e não houve tempo hábil para descobrirmos o que sobreviverá ou não dessa profusão dantesca de música... Aliás, tá aí uma boa ideia para um post, quem sabe: Dante!
Mas ninguém está aqui para me ouvir divagar (divagar, quase parando...), e vamos partir logo para musiquinhas. Para o choque não ser muito extremo (depois das hecatombes que ouvimos recentemente), vamos ouvir o mexicano Carlos Chávez, e sua pequena Nonatzin, de 1972, para coro a capella, sobre um poema em língua asteca (nahuatl):
No you yaz Tonantzin you tlaxcalchihuati ompa motlecuilpan nech xi xi collides nopampa ompa touches. No Tonantzin, here mitz tlahtaniz intla tlecan hits you, xic ilhui: "Xo-xohqui Zenca cuahuitl huanin pohtli nech chohtia"
Mi madrecita, cuando vayas a hacer tus tortillas, allá entiérrame en tu hogar y allá llora por mí. Madrecita, si alguien te pregunta por qué lloras, dile: "Que la leña está verde y el humo me hace llorar."
Mais ou menos da mesma época (1965), e também para coro a capella, temos o Easter Chorale, do americano Samuel Barber, um dos compositores menos "problemáticos" do Século XX:
The morning light renews the sky.
Across the air the birds ignite
Like sparks to take this blaze of day
Through all the precincts of the night.
Alleluia! Alleluia!
The fires of dawn refresh our eyes.
We watch the world grow wide and bright
And praise our newly risen Light.
The winter land receives the year.
Her smallest creatures rouse and cling
To swelling roots and buds that stir
The restless air to reel and ring!
Alleluia! Alleluia!
The sounds of waking fill our ears.
We listen to the live earth sing
And praiseour loving Source and Spring.
Também dele (mas de 1954), a linda cantata Prayers of Kierkegaard, para solistas vocais, coro e orquestra:
Já que vimos um dos menos problemáticos, vamos para o outro extremo, com Pierre Boulez e seu Cummings ist der Dichter, de 1970, sobre um poema sem título do E. E. Cummings que começa com o verso "birds) inventing air" - com parênteses, mesmo - mas cujo texto não encontrei em canto algum:
Completamente diferente (mas completamente "doidinho"), que tal o Recital I (for Cathy), do Luciano Berio, uma cena teatral na qual uma cantora tenta apresentar um recital, que consiste, em grande parte, em colagens de trechos musicais que vão de Monteverdi ao próprio Berio, passando por Bach, Ravel, de Falla, Bizet, Schubert, etc, etc, etc:
Também do Luciano Berio, uma coleção de canções folclóricas (nem todas - algumas delas têm autor certo e conhecido) de diversos países, Folk Songs, de 1966. Lindíssimas!:
Estas são as canções:
1. Black is the colour 0.00-3.20
2. I wonder as I wander 3.23-5.20
3. Loosin yelav 5.22-8.16
4. Rossignolet du bois 8.19-9.56
5. A la
femminisca 9.58-11.31
6. La
donna ideale 11.33-12.53
7. Ballo
12.55-14.27
8.
Motettu de tristura 14.31-17.13
9.
Malorous qu'o uno fenno 17.19-18.16
10. Lo
fïolaire 18.19-21.12
11.
Azerbaijan love song 21.12-23.40
E os textos podem ser encontrados AQUI, mas nem todos tem tradução...
Uma das mais famosas obras desse período (décadas de 60 e 70) é a Music for 18 Musicians, de 1976, do americano Steve Reich. Adoro! Não é exatamente "música vocal", mas as vozes estão lá, trabalhando em pé de igualdade com os instrumentos. Parece música eletrônica feita com instrumentos acústicos:
Também da mesma época temos "Canto General: In Memorian Salvador Allende, para piano, violino e soprano, do holandês Peter Schat, sobre um poema de Pablo Neruda:
Sube a nacer conmigo, hermano.
Dame la mano desde la profunda zona de tu dolor diseminado. No volverás del fondo de las rocas. No volverás del tiempo subterráneo. No volverá tu voz endurecida. No volverán tus ojos taladrados.
Mírame desde el fondo de la tierra, labrador, tejedor, pastor callado: domador de guanacos tutelares: albañil del andamio desafiado: aguador de las lágrimas andinas: joyero de los dedos machacados: agricultor temblando en la semilla: alfarero en tu greda derramado: traed a la copa de esta nueva vida vuestros viejos dolores enterrados.
Mostradme vuestra sangre y vuestro surco, decidme: aquí fui castigado, porque la joya no brilló o la tierra no entregó a tiempo la piedra o el grano: señaladme la piedra en que caísteis y la madera en que os crucificaron, encendedme los viejos pedernales, las viejas lámparas, los látigos pegados a través de los siglos en las llagas y las hachas de brillo ensangrentado.
Yo vengo a hablar por vuestra boca muerta. A través de la tierra juntad todos los silenciosos labios derramados y desde el fondo habladme toda esta larga noche como si yo estuviera con vosotros anclado, contadme todo, cadena a cadena, eslabón a eslabón, y paso a paso, afilad los cuchillos que guardasteis, ponedlos en mi pecho y en mi mano, como un río de rayos amarillos, como un río de tigres enterrados, y dejadme llorar, horas, días, años, edades ciegas, siglos estelares.
Dadme el silencio, el agua, la esperanza.
Dadme la lucha, el hierro, los volcanes.
Apegadme los cuerpos como imanes.
Acudid a mis venas y a mi boca.
Hablad por mis palabras y mi sangre.
E que tal a paródia de "Ticket to Ride" (dos Beatles), composta por um outro holandês, Louis Andriessen, em 1966?:
Para terminarmos com brasileiros, vamos ouvir Yanomami, de 1980, para coro e guitarra, do Marlos Nobre:
E, da mesma época (1979), com o mesmo "assunto", Série Xavante, de César Guerra-Peixe:
E ainda mais outro brasileiro, Cláudio Santoro, só porque eu gosto de suas canções desse período. Entre muitas, vamos ouvir apenas duas, ambas sobre poemas do Vinícius de Moraes. Primeiro, "Ouve o Silêncio":
Cala, ouve o Silêncio.
Ouve o silêncio que nos fala tristemente
desse amor que não podemos ter.
Não fala, fala baixinho,
diz bem de leve um segredo
um verso de esperança em nosso amor.
Não oh, meu amor!
Canta a beleza de viver!
saúda o sol e a alegria de amar
em nossa grande solidão...
E "Amor em Lágrimas":
Ouve o mar que soluça na solidão
Ouve, amor, o mar que soluça
Na mais triste solidão.
E ouve, amor, os ventos que voltam
Dos espaços que ninguém sabe
Sobre as ondas se debruçam
E soluçam de paixão.
E ouve, amor, no fundo da noite
Como as árvores ao vento
Num lamento se debruçam
E soluçam para o chão.
Deixa amor que um corpo sedento
Como as árvores e o vento
No teu corpo se debruce
E soluce de paixão.
Agora que recuperamos um pouco a esperança na humanidade, estamos prontos para enfrentarmos o último capítulo da série, no próximo post!
Como todo mundo (os 2,5 que leem este blog) notou, tenho evitado incluir óperas nestes posts de música vocal (com uma ou outra exceção), pois creio que a ópera é um assunto que merece tratamento numa série dedicada exclusivamente a ela. Quem sabe um dia... Então, sem mais delongas, vamos dar uma espiada em alguns compositores que têm agitado a música "erudita" nos últimos 60 anos.
Comecemos com uma obra maravilhosa e indigesta do Dimitri Shostakovich, A Excução de Stenka Razin, Op. 119, de 1964, para baixo, coro misto e orquestra, com poemas de Yevgeny Yevtushenko. O Shosta a chamou de "poema sinfônico", mas é geralmente classificada como cantata - quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre esta obra, pode dar um conferida neste link. É uma das obras mais impressionantes do Shostakovich, e das menos conhecidas:
A versão em inglês do texto é esta aqui abaixo (essa foi a única versão não-russa encontrei), e os versos em itálico são aqueles cantados pelo coro:
In Moscow, the white-walled capital,
a thief runs with a poppy-seed loaf down the street.
He is not afraid of being lynched today.
There isn’t time for loaves... They
are bringing Stenka Razin!
The tsar is milking a little bottle of
malmsey,
before the Swedish mirror, he squeezes a pimple,
and tries on an emerald seal ring-
and into the square...
They are bringing
Stenka Razin!
Like a little barrel following a fat barrel
a baby boyar rolls along after his mother,
gnawing a bar of toffee with his baby teeth.
Today is a holiday!
They are bringing
Stenka Razin!
A merchant shoves his way in, flatulent with peas.
Two buffoons come rushing at a gallop.
Drunkard-rogues come mincing... They
are bringing Stenka Razin!
Old men, scabs all over them, hardly alive,
thick cords round their necks,
mumbling something, dodder along... They
are bringing Stenka Razin!
And shameless girls also,
jumping up tipsy from their sleeping mats,
with cucumber smeared over their faces,
come trotting up- with an itch in their thighs... They are bringing Stenka Razin!
And with screams from wives of the Royal Guard*
amid spitting from all sides
on a ramshackle cart
he comes sailing in a white shirt.
He is silent, all covered with the spit of the mob,
he does not wipe it away, only grins wryly,
smiles at himself: 'Stenka, Stenka, you are like a branch
that has lost its leaves.
How you wanted to enter Moscow!
And here you are
entering Moscow now...
All right then, spit! Spit! Spit!
after all, it’s a free show.
Good people, you always spit at
those who wish you well.
The tsar’s scribe beat me deliberately across the teeth,
repeating, fervently: ‘Decided
to go against the people, did you?
You’ll find out about against!’
I held my own, without lowering my eyes.
I spat my answer with my blood: ‘Against
the boyars- true.
Against the people - no!
I do not renounce myself,
I have chosen my own fate myself.
Before you, the people, I repent,
but not for what the tsar’s scribe wanted.
My head is to blame.
I can see, sentencing myself: I
was halfway against things,
when I ought to have gone to the very end.
No, it is not in this I have sinned, my people,
for hanging boyars from the towers.
I have sinned in my own eyes in this,
that I hanged too few of them.
I have sinned in this, that in a world of evil
I was a good idiot.
I sinned in this, that being an enemy of serfdom
I was something of a serf myself.
I sinned in this, that I thought of doing battle
for a good tsar. There
are no good tsars, fool...
Stenka, you are perishing for nothing!
Bells boomed over Moscow.
They are leading Stenka to the place of execution.
In front of Stenka in the rising wind
the leather apron of the headsman is flapping,
and in his hands above the crowd
is a blue ax, blue as the Volga.
And streaming, silvery, along the blade
boats fly, boats like seagulls in the morning...
And over the snouts, pig faces, and ugly mugs
of tax collectors and money changers,
like light through the fog, Stenka
saw faces.
Distance and space was in those faces,
and in their eyes, morosely independent,
as if in smaller, secret Volgas Stenka’s
boats were sailing.
It’s worth bearing it all without a tear,
to be on the rack and wheel of execution,
if sooner or later
faces sprout threateningly
on the face of the faceless ones...
And calmly (obviously he hadn’t lived for nothing)
Stenka laid his head down on the block,
settled his chin in the chopped-out hollow
and with the back of his head gave the order:
'Strike, ax...'
Off rolled the head, burning in its blood,
and hoarsely the head spoke: 'Not for nothing...'
And along the ax there were no longer ships-
but little streams, little streams...
Why, good folk, are you standing, not celebrating?
Caps into sky-and dance!
But the Red Square is frozen stiff,
the halberds are scarcely swaying.
Even the buffoons have fallen silent.
Amid the deadly silence
fleas jumped over
from peasants’ jackets onto women’s robes.
The square had understood something.
The square took off their caps,
and the bells struck three times seething with rage.
But heavy from its bloody forelock
the head was still rocking, alive.
From the blood-wet place of execution,
there, where the poor were,
the head threw looks about like anonymous letters... Bustling,
the poor trembling priest ran up,
wanting to close Stenka’s eyelids.
But straining, frightful as a beast,
the pupils pushed away his hand. On
the tsar’s head, chilled by those devilish eyes,
the Cap of Monomakh, began to tremble,
and, savagely, not hiding anything of his triumph,
the head burst out laughing at the tsar!
Do outro lado do planeta - estilística e geograficamente - apesar de mais ou menos da mesma época (1971), vem outro exemplo de música "indigesta" que eu adoro, a Rothko Chapel, do americano Morton Feldman, composta para a "capela" de mesmo nome, uma espécie de "Templo da LBV" localizado em Houston, no Texas:
Quer mais um exemplo dessa mesma época? Que tal o espetacularmente impressionante Requiem für Einen Jungen Dichter: Lingual für Sprecher, Sopran und Baritonsolo, Drei Chöre, Elektronische Klänge, Orchester, Jazz-Combo und Orgel, (Réquiem para um Jovem Poeta: "Lingual" para narrador, soprano, barítono, três coros, sons eletrônicos, orquestra, grupo de jazz, e órgão) de 1969, que, além dos textos normais dos réquiens, também utiliza textos de Ésquilo, Joyce, Pound, discursos de Mao, Hitler, citações dos Beatles, Tristão e Isolda, e uma infinidade de outras citações, muitas vezes ininteligíveis. Violento, trágico, assustador, revoltado, politico até o último segundo de música, é uma trilha sonora perfeita para o século XX:
E, por falar em política e guerra, vamos ouvir a tenebrosa Cantata da Requiem: WW II Poems for Peace, da americana (radicada na Alemanha) Gloria Coates:
(Se alguém quiser providenciar uma tradução competente dos poemas, eu agradeço!)
Outra obra importante dessa época (de 1970), é Sicut Umbra, do serialista italiano Luigi Dallapiccola, para mezzo-soprano (mas a ouviremos com um contratenor) e 12 instrumentos, com poesias do Espanhol Juán Ramón Jiménez:
Já que hoje estamos ouvindo obras particularmente "intragáveis" das décadas de 60 e 70, vamos logo enfiar o pé na jaca e terminar o post com Lux Aeterna, do romeno György Ligeti, de 1966:
Sim, existe um texto sendo cantado!:
Lux aeterna luceat eis, Domine, um sanctis tuis in aeternum, uia pius es.
Requiem aeternam dona eis, Domine; et lux perpetua luceat eis
Mas ouvir Lux Aeterna sempre me faz lembrar de uma outra peça estilisticamente bastante similar, apesar de muito menos "extrema", Voices of Nature, também para coro feminino (com vibrafone, mas sem texto), do Alfred Schnittke, de 1972:
Bom... era meu intuito terminar com o assunto "séculos XX e XXI" neste post, mas, como sempre, acabo dando rédeas ao meu cérebro, que não para de me dar sugestões. Resultado? Não consegui passar da década de 1970... É melhor, então, pararmos por hoje e tirarmos um cochilo de algumas semanas, para digerirmos essa refeição pesada. Mesmo tendo deixado de lado Nagasaki (também do Schnittke), Il Canto Sospeso (do Luigi Nono), Pour la Paix (do grego Iannis Xenakis), e muitas outras "indigestibilidades hecatombísticas", já temos música suficiente para horas e horas de horror... Prometo que tentarei apresentar coisas mais leves no próximo post. Tentarei; se conseguirei, não sei.
Lá vamos nós para mais um post da interminável série Estilistas. Mas não desanimem! Já estamos terminando nossa jornada pela música vocal de 1600-e-bolinha prá cá, e depois só precisaremos fazer o mesmo com a música de câmara, e a música sinfônica, e a ópera (ainda vou decidir sobre isso), e a música para piano (também vou pensar a respeito...). Ou seja: até 2024 provavelmente teremos chegado à metade do caminho. Então, sem mais delongas, vamos passar à música vocal secular dos séculos XX e esse toquinho de século XXI.
Assim como na música sacra (ou em qualquer outro tipo), o que não falta nestes últimos 150 anos é variedade. Os ismos continuam todos a postos, cada um em sua gaveta, só esperando que a gente as abra e escolha o que nos interessa.
A quantidade de música - de boa música - vocal desse último século e meio é tão gigantesca, os estilos são tão variados, que qualquer apanhado que se tente fazer deixará milhões de coisas interessantes de escanteio. Isto posted, comecemos, finalmente, por uma das categorias de música vocal secular que eu mais gosto desse período, as canções com orquestra.
Claro que há tempos canções para solista e orquestra (como árias de concerto e cantatas) não são novidade:
Elas, porém, se tornarão um gênero muito comum a partir do final do século XIX. Richard Strauss foi um dos mais prolíficos (eita palavra feia!) compositores desse tipo de canção; entre muitas, algumas são obras-primas, como "Morgen!", Op. 27 no. 4:
Und morgen wird die Sonne wieder scheinen und auf dem Wege, den ich gehen werde, wird uns, die Glücklichen sie wieder einen inmitten dieser sonnenatmenden Erde… und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen, werden wir still und langsam niedersteigen, stumm werden wir uns in die Augen schauen, und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen...
Tomorrow again will shine the sun And on my sunlit path of earth Unite us again, as it has done, And give our bliss another birth... The spacious beach under wave-blue skies We'll reach by descending soft and slow, And mutely gaze in each other's eyes, As over us rapture's great hush will flow.
"Morgen!", porém, foi composta originalmente para voz e piano, mas, assim como inúmeras outras canções dele e de muitos outros compositores, existe também em versão para voz e orquestra. Claro que existem aquelas compostas originalmente para orquestra, como suas mais famosas canções, o espetacular ciclo das Vier letzte Lieder ("Frühling", "September", "Beim Schlafengehen", "Im Abendrot"). Aumente o volume para aproveitar melhor essa música que é ao mesmo tempo grandiosa, intimista, avassaladora, trágica, calma, estática, etc, etc, etc:
(Os poemas - do Herman Hesse e Josef von Eichendorff - estão AQUI)
Ficou difícil continuar com o assunto, agora, mas vou tentar...
Não é possível falar de canções com orquestra sem pensar em Gustav Mahler. Eu acho suas sinfonias algumas das coisas mais enfadonhas do planeta; já seus ciclos de canções são outra história! Meu favorito é o (obviamente) trágico Kindertotenlieder (Canções para a morte da criança):
Poderíamos passar dias só falando de ciclos de canções orquestrais (há muitos e muitos e muitos, um mais lindo que o outro), mas não temos tempo para tanto... Vamos ouvir, então, apenas mais um ciclo, composto quase 40 anos antes do Vier letzte Lieder, mas muito mais "moderno", o Altenberg Lieder, Op. 4, do Alban Berg, com poemas de Peter Altenberg:
1. Seele, wie bist du schöner
2. Sahst du nach dem Gewitterregen den Wald?
3. Über die Grenzen des Alls
4. Nichts ist gekommen
5. Hier ist Friede
E ainda mais um outro, de Karol Szymanowski - também entre meus preferidos - a Sinfonia nº 3, para orquestra, tenor e coro. É uma sinfonia, mas também é um ciclo de canções, então serve!:
(Só encontrei o texto em polonês, que é pior que russo. Nem me darei ao trabalho de colocá-lo aqui)
Muitos "fetichistas" que conheço pertencem à categoria "Eu não suporto
piano", que costumam ficar maravilhados por a orquestra haver roubado um
lugar que pertencia quase exclusivamente a ele, o piano. Alegro-me em informar, porém, que o gênero voz+piano ainda não deu sinal de estar
correndo perigo, mesmo porque é muito mais barato pagar um só pianista que pagar dezenas de músicos!
Essa
é, então, a deixa para ouvirmos algumas canções (e ciclos) para voz e
piano, começando com um dos meus favoritos, Claude Debussy, um dos pais da música moderna, e seu pequeno e lindíssimo ciclo para voz e piano, Les Chanson de Bilitis, com poemas de Pierre Louÿs:
1. La flûte de Pan
Pour le jour des Hyacinthies,
il m'a donné une syrinx faite
de roseaux
bien taillés,
unis avec la
blanche cire
qui est
douce à mes lèvres comme le miel.
Il m'apprend
à jouer, assise sur ses genoux ;
mais je suis
un peu tremblante.
il en joue
après moi,
si doucement
que je l'entends à peine.
Nous n'avons
rien à nous dire,
tant nous
sommes près l'un de l'autre;
mais nos
chansons veulent se répondre,
et tour à tour nos bouches
s'unissent sur la flûte.
Il est tard,
voici le chant des grenouilles
vertes
qui commence avec la nuit.
Ma mère ne
croira jamais
que je suis
restée si longtemps
à chercher
ma ceinture perdue.
2. La chevelure
Il m'a dit: « Cette nuit, j'ai rêvé.
J'avais ta chevelure autour de mon
cou.
J'avais tes cheveux comme un collier
noir
autour de ma nuque et sur ma
poitrine.
« Je les
caressais, et c'étaient les miens ;
et nous étions liés pour toujours
ainsi,
par la même chevelure, la bouche sur
la bouche,
ainsi que deux lauriers n'ont
souvent qu'une racine.
« Et peu à
peu, il m'a semblé,
tant nos
membres étaient confondus,
que je
devenais toi-même,
ou que tu
entrais en moi comme mon songe. »
Quand il eut achevé,
il mit doucement ses mains sur mes
épaules,
et il me
regarda d'un regard si tendre,
que je
baissai les yeux avec un frisson.
3. Le
tombeau des Naïades
Le long du
bois couvert de givre, je marchais;
Mes cheveux
devant ma bouche
Se
fleurissaient de petits glaçons,
Et mes
sandales étaient lourdes
De neige
fangeuse et tassée.
Il me dit:
"Que cherches-tu?"
Je suis la
trace du satyre.
Ses petits pas fourchus alternent
Comme des trous dans un manteau
blanc.
Il me dit: "Les satyres sont
morts.
"Les satyres et les nymphes
aussi.
Depuis trente ans, il n'a pas fait
un hiver aussi terrible.
La trace que tu vois est celle d'un
bouc.
Mais restons
ici, où est leur tombeau."
Et avec le
fer de sa houe il cassa la glace
De la source
ou jadis riaient les naïades.
Il prenait de grands morceaux
froids,
Et les soulevant vers le ciel pâle,
Il regardait
au travers.
E também tem Manuel de Falla e seu (perfeito) ciclo Siete canciones populares españolas. Para você ver até onde vai o preconceito: existem versões deste ciclo para orquestra e para violão, e - apesar de o original ter sido composto para voz e piano - já me aconteceu de virem comentar que a "versão" para piano é muito pior que o "original" para violão e voz... Tudo bem preferir a versão com violão - fique à vontade! - mas não deixe seu pré-conceito tomar as rédeas, pois preconceito musical é igual a qualquer outro tipo: só serve para mostrar ignorância. Enfim... aqui vai o vídeo da "versão para piano e voz"(o vídeo é estranhíssimo - não há vídeo - mas das versões que encontrei no YT essa é minha favorita):
E, já que passamos a um gênero mais "popular", vamos ouvir uma canção (voz e piano) do americano Charles Ives, um dos primeiros americanos "modernos". É tão moderno, tão moderno, que muitas de suas canções, ao menos, poderiam servir para um show da Madeleine Peyroux, como, por exemplo, "Songs My Mother Taught Me":
Lindo! Quem ouve nem pensa que tem uns 100 anos de idade! Tá certo que esta versão, apesar de seguir (quase) fielmente a partitura, tem um ar muito mais "autêntico", na minha opinião, do que as versões "lírico-operísticas" de todas as outras gravações de Ives que conheço. Adoro essa cantora, Cristina Zavalloni, justamente por seu jeito mais "popular" de cantar a música clássica, sem cair na "armadilha dos Três tenores". Ó outro exemplo dela, cantando o nº 5, "Nana", das Siete Canciones do Falla:
Mas continuemos com nosso assunto. Nós já ouvimos por aqui muitas canções do século XX quando falei de Duparc e da música "de cabaré". Vamos passar, então, para coisas mais indigestas; mais indigestas, mas nem por isso piores. Comecemos com Schoenberg e seu Um Sobrevivente de Varsóvia, Op. 46, para narrador, coro masculino, e orquestra:
I cannot remember ev'rything.
I must have been unconscious most of the time.
I remember only the grandiose moment
when they all started to sing as if prearranged,
the old prayer they had neglected for so many years
the forgotten creed!
But I have no recollection how I got underground
to live in the sewers of Warsaw for so long a time.
The day began as usual: Reveille when it still was dark.
Get out! Whether you slept or whether worries kept you awake the whole night.
You had been separated from your children, from your wife, from your parents;
you don't know what happened to them; how could you sleep?
The trumpets again --
Get out! The sergeant will be furious!
They came out; some very slow: the old ones, the sick ones;
some with nervous agility.
They fear the sergeant. They hurry as much as they can.
In vain! Much too much noise; much too much commotion -- and not fast enough!
The Feldwebel shouts:
»Achtung! Stilljestanden! Na wirds mal?
Oder soll ich mit dem Jewehrkolben nachhelfen?
Na jutt; wenn ihrs durchaus haben wollt!«
The sergeant and his subordinates hit everybody:
young or old, quiet or nervous, guilty or innocent.
It was painful to hear them groaning and moaning.
I heard it though I had been hit very hard,
so hard that I could not help falling down.
We all on the ground who could not stand up were then beaten over the head.
I must have been unconscious.
The next thing I knew was a soldier saying:
»They are all dead«,
whereupon the sergeant ordered to do away with us.
There I lay aside half-conscious.
It had become very still -- fear and pain.
Then I heard the sergeant shouting: »Abzählen!«
They started slowly and irregularly: one, two, three, four
»Achtung!« the sergeant shouted again,
»Rascher! Nochmal von vorn anfangen!
In einer Minute will ich wissen,
wieviele ich zur Gaskammer abliefere!
Abzählen!»
They began again, first slowly: one, two, three, four,
became faster and faster, so fast
that it finally sounded like a stampede of wild horses,
and all of a sudden, in the middle of it,
they began singing the Sema' Yisroel:
Não podemos falar de obras para coro e orquestra sem ouvirmos a Cantata Profana, Sz 94, de Béla Bártok:
(Não encontrei o texto integral, nem em romeno!, mas tem uma explicação do que se trata, AQUI)
Nem sem ouvir a Cantata Aleksandr Nevskii, para contralto, coro, e orquestra, que Sergei Prokofiev rearranjou a partir da música do filme de Sergei Eisenstein:
(Saco... mais uma sem legenda. Vamos ter que assistir ao filme original novamente para entender o que está acontecendo. E o filme - com legendas em francês - está AQUI)
Tá vendo como tem um monte de coisa linda no século XX? Tenho certeza que até o anti-moderno mais empedernido não resiste a, por exemplo, Carmina Burana. Todo mundo conhece o trecho inical, "Fortuna, Imperatrix Mundi". Um dos meus trechos favoritos, porém, é "In trutina", já quase no final da cantata:
Para contrabalançar uma das obras mais populares do século XX, vamos para o outro extremo, com as Sechs Lieder, Op. 14, do Anton Webern, sobre poemas de Georg Trakl:
(Os textos, em várias línguas, podem ser lidos nos links 1, 2, 3, 4, 5, 6)
Nós já ouvimos horas de música mas não conseguimos chegar nem em 1950! Teremos que voltar outro dia a esse assunto, e terminarmos por hoje com Villa-Lobos. Primeiro, a "Canção do Poeta do Século XVIII". A qualidade dos vídeos disponíveis no IúTúbi é um um tanto quanto sofrível; vamos escutar a melhor delas, apesar do problema que eu tenho com o português da Tereza Berganza:
A "tradução" do poema de Alfredo Ferreira é esta:
Sonhei que a noite era festiva e triste a lua
E nós dois na estrada enluarada fria e nua.
Nuvens a correr em busca de quimeras
E com as nossas ilusões de fantasias
De viver como no céu a cantar
uma doce canção que enche de luz
o amor e a vida nas linhas das primaveras.
Mais bonita é a "Canção de Amor", da suíte Floresta do Amazonas:
Sonhar na tarde azul
Do teu amor ausente
Suportar a dor cruel
Com esta mágoa crescente
O tempo em mim agrava
O meu tormento, amor!
Tão longe assim de ti
Vencida pela dor
Na triste solidão
Procuro ainda te encontrar
Amor, meu amor!
Tão bom é saber calar
E deixar-se vencer pela realidade
Vivo triste a soluçar
Quando, quando virás enfim?
Sinto o ardor dos beijos teus
Em mim. Ah!
Qualquer pequeno sinal
E fremente surpresa
Vem me amargurar
Tão doce aquela hora
Em que de amor sonhei
Infeliz, a sós, agora
Apaixonada fiquei
Sentindo aqui fremente
O teu reclamo amor!
Tão longe assim de ti
Ausente ao teu calor
Meu pobre coração
Anseia sempre a suplicar
Amor, meu amor!
E a obra completa, para quem quiser:
Das Bachianas Brasileiras no. 5, para voz e orquestra de violoncelos, não preciso nem falar, pois todo mundo a conhece. Vamos ouvir, ao invés disso, o maravilhoso Chôros nº 10, "Rasga Coração", para coro e orquestra:
Infelizmente as versões que encontrei no YT utilizam a versão publicada por Villa-Lobos, sem texto, devido ao processo movido contra ele por ter utilizado o poema sem pagar por isso. O poema, de Anacleto de Medeiros e Catulo da Paixão Cearense é esse abaixo, e eu adoraria poder ouvi-lo junto com a música:
Se tu queres ver a imensidão do céu e mar
Refletindo a prismatização da luz solar
Rasga o coração, vem te debruçar
Sobre a vastidão do meu penar
Rasga-o, que hás de ver
Lá dentro a dor a soluçar
Sob o peso de uma cruz
De lágrimas chorar
Anjos a cantar preces divinais
Deus a ritmar seus pobres ais
Sorve todo o olor que anda a recender
Pelas espinhosas florações do meu sofrer
Vê se podes ler nas suas pulsações
As brancas ilusões e o que ele diz no seu gemer
E que não pode a ti dizer nas palpitações
Ouve-o brandamente, docemente a palpitar
Casto e purpural num treno vesperal
Mais puro que uma cândida vestal
Hás de ouvir um hino
Só de flores a cantar
Sobre um mar de pétalas
De dores ondular
Doido a te chamar, anjo tutelar
Na ânsia de te ver ou de morrer
Anjo do perdão! Flor vem me abrir
Este coração na primavera desta dor
Ao reflorir mago sorrir nos rubros lábios teus
Verás minha paixão sorrindo a Deus
Palma lá do Empíreo
Que alentou Jesus na cruz
Lírio do martírio
Coração, hóstia de luz
Ai crepuscular, túmulo estelar
Rubra via-sacra do penar
Enquanto ninguém faz isso (nem o Karabtchevsky nem a BBC se dispuseram a tanto), vou ficar por aqui, esperando, esperando, esperando...