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domingo, 27 de julho de 2014

Tá na hora da melatonina!



Canção de ninar, berceuse, lullaby, Wiegenlied, canción de cuna, etc, é um gênero que quase todo compositor, mais cedo ou mais tarde, experimenta. Quer ver como é verdade?

Nós já ouvimos por aqui ao menos três exemplos diferentes, se não me falha a memória. Entre eles, um dos mais famosos, "Summertime", da ópera do Gershwin, Porgy and Bess, aqui em uma de suas "versões" mais "clássicas":


E ainda mais outra "versão clássica":


E uma gravação "clássica clássica":


Também já ouvimos a Berceuse, Op. 57, do Chopin; mas agora vai uma gravação diferente, com minha "ídala" Guiomar Novaes, que esqueci de acrescentar entre meus monstrinhos favoritos:


A terceira canção de ninar que ouvimos por aqui é "Nana", do ciclo Siete Canciones Populares Españolas, do Manuel de Falla:

(Como eu adoro isso!!!)

Duérmete, niño, duerme,
Duerme, mi alma,
Duérmete, lucerito
De la mañana.
Nanita, nana,
Nanita, nana.
Duérmete, lucerito
De la mañana.

Vamos, então, para coisas novas, e comecemos com um ilustre desconhecido, o romântico Benjamin Godard, cuja música desapareceu quase completamente. A Berceuse da ópera Jocelyn é uma das poucas coisas suas que sobreviveram:


Cachés dans cet asile où Dieu nous a conduits,
Unis par le malheur, durant les longues nuits
Nous reposons tous deux endormis sous les voiles
Ou prions aux regards de tremblantes étoiles.

Oh ne t'éveille pas encor
Pour qu'un bel ange de ton rêve
En déroulant son long fil d'or,
Enfant, permette qu'il s'achève.
Dors, dors, le jour à peine a lui.
Vierge Sainte, veillez sur lui

Sous l'aile du Seigneur loin du bruit de la foule
Et comme un flot sacré qui doucement s'écoule
Nous avons vu les jours passer après les jours
Sans jamais nous lasser d'implorer son secours.

Nosso próximo convidado, Igor Stravinsky, traz uma Berceuse no meio de seu balé O Pássaro de Fogo:


Também do Stravinsky, as estranhíssimas Berceuses du Chat, para voz e três clarinetas (em russo, cujo texto em versão francesa pode ser encontrado AQUI):


E agora vamos de Ravel, com a Berceuse sur le nom de Gabriel Fauré, para violino e piano:

>

O próprio Fauré também tem uma Berceuse para Violino e Piano, op. 16, em ré maior:


A primeira peça de sua suíte para piano a 4 mãos, Dolly, Op. 56, também é uma berceuse:


(Bonitinho demais!)

E vale a pena ouvir a suíte inteira, eu acho:


Lindíssima é a "Berceuse for the Infant Jesu", nº 2 de A Little Suite for Christmas, do americano George Crumb:


E a suite inteira, com seus movimentos "The Visitation", "Berceuse for the Infant Jesu", "The Shepherd's Noël", "Adoration of the Magi", "Nativity Dance", "Canticle of the Holy Nights" e "Carol of the Bells":


Não posso passar por este assunto sem citar a Berceuse héroique, L. 132, do Claude Debussy, composta em homenagem ao rei da Bélgica, Albert I, e seus soldados, que iriam lutar na Primeira Guerra Mundial:


Também há uma berceuse na ópera Philémon et Baucis, do Charles Gounod, e que eu só descobri porque o Gúgou me contou. Nem eu, que conheço um pouco de música, havia ouvido falar nessa ópera! E parece que o IúTúbi também não conhece!Mas ele (o YT) me disse que também tem a Priere et berceuse, Op. 17, para violoncelo e piano, do Pablo de Sarasate. Bom saber, mas sua sugestão  não foi muito feliz...


Levemente menos chata é a Craddle Song, também para cello e piano do inglês Frank Bridge, na "encarnação para violino":


Já a canção "Bei der Wiege", do Mendelssohn, vale a pena:


Em alemão:

Schlummre! Schlummre und träume von kommender
Zeit, Die sich dir bald muß entfalten,
Träume, mein Kind, von Freud' und Leid,
Träume von lieben Gestalten!
Mögen auch viele noch kommen und gehen,
Müssen dir neue doch wieder erstehen,
Bleibe nur fein geduldig!

Schlummre! Schlummre und träume von Frühlingsgewalt,
Schau' all' das Blühen und Werden,
Horch, wie im Hain der Vogelsang schallt,
Liebe im Himmel, auf Erden!
Heut' zieht's vorüber und kann dich nicht kümmern,
Doch wird dein Frühling auch blühn und schimmern,
Bleibe nur fein geduldig!


E em Inglês:

Slumber! Slumber and dream of coming times,
That soon must unfold for you,
Dream, my child, of joy and pain,
Dream of dear shapes!
May yet many come and go,
Yet must new ones arise for you,
Be good and stay patient! Slumber!

Slumber and dream of spring's power,
See all the blooming and becoming,
Listen, how birdsong rings through the grove,
Love in Heaven, on Earth.
Today passes by and does not concern you,
But your spring will also bloom and shimmer,
Be good and stay patient!

Canções de ninar, claro, existem aos montes, entre elas algumas maravilhas, como o "Wiegenlied", D. 498, Op. 98, no. 2, do Schubert:


Schlafe, holder, süßer Knabe,
Leise wiegt dich deiner Mutter Hand;
Sanfte Ruhe, milde Labe
Bringt dir schwebend dieses Wiegenband.

Schlafe in dem süßen Grabe,
Noch beschützt dich deiner Mutter Arm,
Alle Wünsche, alle Habe
Faßt sie lieben, alle liebwarm.

Schlafe in der Flaumen Schoße,
Noch umtönt dich lauter Liebeston,
Eine Lilie, eine Rose,
Nach dem Schlafe werd' sie dir zum Lohn.

Em inglês:

Do sleep, do sleep, lovely, sweet boy,
To the gentle rocking of your mother's hand;
Peaceful sleep, and recreation
Does come floating with each gentle pull.

Do sleep, do sleep in your sweet berth,
Still protected by your mother's arm,
All her wishes, all your talents
Encompassing, in her steady love.

Do sleep, do sleep, in that downy embrace,
Still you only hear a gentle crooning,
Dewy flowers: lilies and roses,
after slumber they will be your prize.

Uma das mais conhecidas é "Schlafe, mein Prinzchen, schlaf' ein", que sempre acharam ser do Mozart (ela ganhou até um número só pra ela, no catálogo das obras do Wolf: K. 350), mas cuja autoria ainda é alvo de controvérsias; atualmente há dois candidatos, Bernhard Flies ou Johann Friedrich Anton Fleischmann, ambos contemporâenos do Mozart:


Schlafe, mein Prinzchen, schlaf ein,
es ruhn Schäfchen und Vögelein,
Garten und Wiese verstummt,
auch nicht ein Bienchen mehr summt,
Luna mit silbernem Schein
gucket zum Fenster herein,
schlafe bei silbernem Schein,
schlafe, mein Prinzchen, schlaf' ein!

Alles im Schlosse schon liegt,
alles in Schlummer gewiegt,
reget kein Mäuschen sich mehr,
Keller und Küche sind leer,
nur in der Zofe Gemach
tönet ein schmachtendes Ach!
Was für ein Ach mag dies sein?
Schlafe, mein Prinzchen, schlaf' ein.

Wer ist beglückter als du?
Nichts als Vergnügen und Ruh!
Spielwerk und Zucker vollauf,
und noch Karossen im Lauf,
alles besorgt und bereit,
daß nur mein Prinzchen nicht schreit.
Was wird da künftig erst sein?
Schlafe, mein Prinzchen, schlaf' ein.

E, em inglês:

Sleep, my little prince, fall asleep:
 the lambs and birdies are resting,
 the garden and meadow are silent,
 and even the little bee hums no more.
 Luna with a silver gleam
 is pouring her light into the window.
 Sleep by the silvery light,
 sleep, my little prince, fall asleep!

 Everyone in the castle is already lying down:
 everyone is cradled in slumber,
 and even the little mouse rustles no more.
 The cellar and kitchen are empty,
 only in the chambermaid's quarters
 one can hear a languishing sigh!
 What kind of sigh might this be?
 Sleep, my little prince, fall asleep!

 Who is happier than you?
 Nothing but amusement and rest!
 Toys and sugar enough,
 and even a stately coach to convey you;
 everyone is careful and ready
 so that my little prince will not shriek.
 But what will the future bring?
 Sleep, my little prince, fall asleep.

Linda também é "Wiegenlied", Op. 41, nº 1, do Richard Strauss:


Träume, träume, du mein süßes Leben,
Von dem Himmel, der die Blumen bringt.
Blüten schimmern da, die leben
Von dem Lied, das deine Mutter singt.

Träume, träume, Knospe meiner Sorgen,
Von dem Tage, da die Blume sproß;
Von dem hellen Blütenmorgen,
Da dein Seelchen sich der Welt erschloß.

Träume, träume, Blüte meiner Liebe,
Von der stillen, von der heilgen Nacht,
Da die Blume seiner Liebe
Diese Welt zum Himmel mir gemacht.

Em inglês:

Dream, dream, my sweet life,
of the heaven that brings flowers.
Shimmering there are blossoms that [live on]1
the song that your mother is singing.

Dream, dream, bud of my worries,
of the day the flower bloomed;
of the bright morning of blossoming,
when your little soul opened up to the world.

Dream, dream, blossom of my love,
of the quiet, of the holy night
when the flower of his love
made this world a heaven for me.

Esse poema também foi musicado por Max Reger ("Wiegenlied", Op. 51, nº 3) e por Hans Pfitzner ("Venus mater", Op. 11 no. 4), mas não encontrei esses vídeo em lugar algum. Para compensar, vamos ouvir outra canção de ninar do Max Reger, "Mariä Wiegenlied", Op. 76, nº 52, lindíssima:


Maria sitzt im Rosenhag
Und wiegt ihr Jesuskind,
Durch die Blätter leise
Weht der warme Sommerwind.

Zu ihren Füßen singt
Ein buntes Vögelein:
Schlaf, Kindlein, süße,
Schlaf nun ein!

Hold ist dein Lächeln,
Holder deines Schlummers Lust,
Leg dein müdes Köpfchen
Fest an deiner Mutter Brust!
Schlaf, Kindlein, süße,
Schlaf nun ein!

Em inglês:

Mary sits in the rosegrove
and rocks her child Jesus,
softly through the leaves
blows a warm summer wind.

At her feet sings
a colorful little bird:
Sleep, child, my sweet,
just go to sleep!

Lovely is your smile,
lovely is your joy in slumber,
lay your tired little head
against your mother's breast!
Sleep, child, my sweet,
just go to sleep!

Outra que eu adoro é a "Canção de Ninar", Op. 16. nº 1, de Tchaikovsky:


Não vou colocar o poema em russo, ok?

Sleep, my baby, sleep, fall asleep, sleep, fall asleep!
Beckon sweet dreams to yourself:
I've hired as nannies for you
The Wind, the Sun and the Eagle.

The Eagle has flown back home,
The Sun has hidden under the waters,
And three nights later
The Wind is rushing away to her Mother.

The Wind's mother has been asking:
"Where have you been for so long?
Have you been fighting the stars?
Have you been chasing the waves?"

"I haven't been chasing the sea-waves,
I haven't been touching the golden stars,
I have been guarding a baby
And rocking gently his little cradle".

Sleep, my baby, sleep, fall asleep, sleep, fall asleep!
 Beckon sweet dreams to yourself:
I've hired as nannies for you
The Wind, the Sun and the Eagle.

Há milhares e milhares de canções de ninar, por milhares de compositores, obviamente. Você está com tempo para ouvir todas? Eu, não... Vamos ouvir, então, apenas mais duas. "Geistliches Wiegenlied", Op. 91, nº 2, do Brahms, para voz, piano, e viola:


E deixei para o final aquela na qual todo mundo pensa quando imagina uma canção de ninar, o "Wiegenlied", Op. 49, nº 4, também do Brahms:


Guten Abend, gute Nacht,
mit Rosen bedacht,
mit Näglein[N 1] besteckt,
schlupf′ unter die Deck!
Morgen früh, wenn Gott will,
wirst du wieder geweckt.

Guten Abend, gute Nacht,
von Englein bewacht,
die zeigen im Traum
dir Christkindleins Baum.
Schlaf nun selig und süß,
schau im Traum ′s Paradies.

E, em inglês:

Good evening, good night,
With roses covered,
With carnations adorned,
Slip under the covers.
Tomorrow morning, if God wants so,
you will wake once again.

Good evening, good night.
By angels watched,
Who show you in your dream
the Christ-child′s tree.
Sleep now blissfully and sweetly,
see the paradise in your dream.

Para terminarmos, um pouquinho de música brasileira:

Lorenzo Fernandes, Berceuse da Boneca Triste:


E a Berceuse do praticamente desconhecido Custódio Góes:


Villa-Lobos também tem um exemplo, a Berceuse para Violoncelo e Piano (chatinha, na minha opinião):


Mais outra Berceuse, agora do Henrique Oswald (Op. 14, nº 1). Pena que não encontrei um gravação melhor, pois essa é tão chatinha que dá sono (vai ver que era isso mesmo que ele queria...):



Para terminar mesmo, a Paulistana nº 1, do Cláudio Santoro. Tá certo, não é tecnicamente uma canção de ninar, mas seu ritmo "rede preguiçosa/cadeira de balanço" já é suficiente, para mim. A única coisa que eu não gosto nessa Paulistana é ela sofrer tanto na mão dos pianistas... Música simples é sempre muito fácil de se estragar:




Bons sonhos!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Estilistas na fase oral 4 : Classicismo 2.0

Aimeudeus... não vou terminar nunca este assunto. Já estou ficando cansado, e ainda faltam os séculos XIX e XX. Socorro!!!!!!!!

Enfim, vamos lá: Classicismo 2.0! Já tratamos de música vocal de igreja, então vamos agora para música vocal de câmara e de teatro. 

Música vocal cubicularis:

Eu tenho a impressão de que o Classicismo é a primeira época na história da música em que a música vocal de câmara não tinha muita importância. Quer dizer... claro que existem exemplos, aos montes, mas o século XVIII tinha basicamente duas preocupações: ópera e música instrumental (sonatas, concertos e, na segunda metade do século, sinfonias). A música instrumental desse período é tão absurdamente importante e original,  abriu tantas novas possibilidades, que alguns gêneros muito característicos da música vocal parecem sumir durante este período.

Até mesmo as óperas dessa época (toneladas!) não são capazes e competir com a música instrumental. Pela primeira vez a música instrumental era o campo onde novas ideias surgiam. Até então a evolução da música esteve (quase) sempre confinada á música vocal - vide a importância da música sacra, das cantatas (sacras ou seculares), do madrigal, da ópera, no desenvolvimento dos estilos e técnicas musicais.

A paisagem do século XVIII, quando vista daqui do século XXI, parece uma floresta verde de música instrumental, apenas salpicada de vez em quando por um ipê amarelo de música vocal. Quem, hoje em dia, conhece música vocal do século XVIII em quantidade suficiente para competir com a música instrumental desse período? Ainda existem os ipês amarelos, pontinhos esparsos no matagal, exemplares maravilhosos que sobreviveram isolados, alheios ao que acontece (e aconteceu) no restante da floresta. A maior parte deles, porém, morreu...

O único compositor de ópera daquela época que realmente sobreviveu até hoje é (adivinha quem?) Mozart, claro, e isso porque, mais que qualquer ouro compositor de ópera da época, ele tinha absoluto domínio da música instrumental. Suas óperas representam quase que a totalidade dos ipês amarelos sobreviventes. Existem outros, obviamente, mas são poucos: Gluck, Cherubini, Cimarosa e uma meia dúzia de 2 ou 3 compositores que, esporadicamente, são desenterrados e colocados à prova novamente: "Vamos tirar a múmia do sarcófago e descobrir se ela ainda consegue ficar em pé!" Nessa categoria estão Salieri, Gréty, Paisiello, e alguns poucos outros.

Para piorar a situação da música vocal, o repertório "extra-igreja e extra-operístico" (lieder, chanson, árias de concerto) ainda estava engatinhando, só pegando embalo no início do século XIX. Se bem que, no caso desse repertório, o motivo pode ser outro: existe uma grande quantidade de obras que não foi devidamente catalogado e/ou editado até hoje, e mesmo aquilo que foi editado não entrou no repertório "comum" dos concertos. Cantam-se algumas canções e árias de concerto de Mozart até hoje, mas quem é que conhece as canções do Haydn? (Existem dezenas!!!). Olha só essa aqui, "A Pastoral Song" (é em inglês mesmo, ok?), como é linda!:


My mother bids me bind my hair
With bands of rosy hue,
Tie up my sleeves with ribbons rare,
And lace my bodice blue.

For why, she cries, sit still and weep,
While others dance and play?
Alas! I scarce can go or creep,
While Lubin is away.

'Tis sad to think the days are gone,
When those we love were near;
I sit upon this mossy stone,
And sigh when none can hear.

And while I spin my flaxen thread,
And sing my simple lay,
The village seems asleep, or dead,
Now Lubin is away.

Sobrevive, também, um repertório que originalmente era operístico, mas cujas molduras moreram: muitas múmias viraram pó, restando apenas uma mão ou uma orelha ainda vivas. São árias de ópera que tiveram a chance de ressuscitar como música de câmara, como, por exemplo, "O Del mio dolce ardor", que é a Pour Elise  da música vocal - todo cantor, obrigatoriamente, já passou por ela em algum momento da vida, e que é (era?) uma ária da ópera Paride ed Elena, do Gluck, e que mereceu ter sobrevivido. É linda, ainda mais quando interpretada por um profissional:


Espero que ainda ressuscitem mais coisas desse repertório, porém, até lá, não posso fazer nada... Passemos logo para a ópera, deixando para trás esse repertório vocal de câmara que já foi deixado para trás há muito mais tempo.

E agora eu estou no sal! Prometi que não iria falar de Mozart, então não posso colocar nada de Don Giovanni, Così fan Tutte, A Flauta Mágica, Le Nozze di Figaro, O Rapto do Serralho, Idomeneo, Mitridate, re di Ponto, La Clemenza di Tito (sem contar as outras menos conhecidas). Saco!

Tirando Mozart, sobrou muito pouco, e algumas das exceções mais espetaculares são as óperas (algumas delas) do Gluck ("dono" dessa "ária pedaço-de-múmia" daí de cima), principalmente Alceste, Orphée et Eurydice, Iphigénie en Aulide, e Iphigénie en Tauride. Todas lindas, todas ainda no repertório, todas ainda conhecidas e ainda apresentadas atualmente (menos em Brasília, claro...), e todas em francês, pois foram compostas para serem apresentadas em Paris, apesar de Gluck ser alemão.

Ó só que linda ária (com coro) "Ô malheureuse Iphigénie", umas das mais conhecidas (e usada na trilha sonora do filme Ligações Perigosas), da ópera Iphigénie en Tauride:


IPHIGENIE

Ô malheureuse Iphigénie!
Ta famille est anéantie!
Vous n'avez plus de rois, je n'ai plus de parents,
Mêlez vos cris plaintifs à mes gémissements!
Vous n'avez plus de rois, etc.
O malheureuse Iphigénie!
Ta famille est anéantie! etc.

CHOEUR DES PRÊTRESSES

Mêlons nos cris plaintifs à ses gémissements!

IPHIGÉNIE

Vous n'avez plus de rois, je n'ai plus de parents.

CHOEUR DES PRÊTRESSES

Nous n'avions d'espérance, hélas! que dans Oreste!
Nous avons tout perdu, nul espoir ne nous reste!

Para quem quiser enfrentar a ópera inteira (com legendas), aqui vai a versão integral. Tire um dia livre e faça a si mesmo o favor de assisti-la inteira, é linda:

(Só encontrei o libreto no original francês, com uma versão em alemão, AQUI)

Já que não posso colocar Mozart, vou ter que colocar alguma coisa do tão difamado Antonio Salieri. A ária "Par les larmes dont votre fille", da ópera Les Danaïdes (outra ópera encomendada para Paris), por exemplo, é linda!:


Não encontrei o libretto da ópera em lugar algum, mas se alguém se atrever a enfrentar o original francês, aqui está ela, infelizmente em versão de concerto (sem encenação):


E, já que falamos de Salieri, vamos ouvir Il Burbero di buon core, do espanhol Vicente Martín y Soler, que praticamente só sobrevive na Espanha (injustamente, porque é muito divertida!), e cujo libretto foi escrito por Lorenzo Da Ponte, o libretista responsável por Le Nozze di Figaro (que é a segunda parte de O Barbeiro), Così fan tutte, Don Giovanni, além de várias outras óperas do próprio Martín y Soler e do Salieri. Com vocês, um pequeno trecho de Il Burbero:


Aqui, as duas partes da versão integral (sem legendas novamente):



(ATUALIZAÇÃO: viu como eu tinha colocado a ópera inteira? O YT, porém, a jogou fora, e não existe mais nenhuma versão integral voando pela Internet, pelo visto...)

Martín y Soler e Salieri são considerados apenas como sub-Mozarts, hoje em dia, mas não dá para ser de outra maneira: há poucos, em quaisquer períodos da música, que não sejam sub-Mozarts. A história está cheia de sub-Shakespeares, sub-Dantes, sub-Da Vincis, sub-etc-etc-etc, que também merecem sobreviver!

Ó só outro "sub-Mozart", Domenico Cimarosa, cuja ópera Il Matrimonio Segreto foi composta para Viena, e lá estreou pouco mais de um mês após a morte de Mozart. É uma das poucas óperas deste período que ainda são reapresentadas regularmente e que não são do Mozart. Aqui, um trecho do segundo ato:


FIDALMA

Ebbene in questo punto
Vi do la mia parola
Che sarete mio sposo...

PAOLINO

Sposo?

FIDALMA

Sì, caro mio.

PAOLINO

Io?

FIDALMA

Sì, mio caro,
Sì, mio bene, consolati ...
Ma di color tu cangi? ... E che cos'hai?

PAOLINO

(Qual nuovo contrattempo è questo mai!)
Sento, ahimè! che mi vien male,
Già mi manca quasi il fiato!

FIDALMA

Non è niente, sposo amato,
Questo è effetto del piacer.

PAOLINO

Per pietà, che in svenimento
Io mi sento già cader.

FIDALMA

E' l'effetto del contento,
Passerà, no, non temer.
Mio caro Paolino
Ma! .... certo è svenuto,
Porgiamogli aiuto ...
C'è alcuno di là?
L'amore, il contento
Vedete che fa?

CAROLINA

Ma cosa è accaduto?
Che cosa è mai stato?

FIDALMA

Il povero giovine
Di me innamorato,
Per gioia in deliquio
Vedete che sta.
Io vado a pigliare
Un certo elisire,
Non state a partire.
Restatevi qua.

CAROLINA

(Che creder, che dire
Da me non si sa.)
Giusto Cielo! Quale affanno,
Qual sospetto mi martella!
Su, ti scuoti, su favella!
Io mi sento lacerar.

PAOLINO

Carolina, deh, va via!

CAROLINA

Tu invaghito di mia zia,
E mi vieni ad ingannar.

PAOLINO

Taci, taci, che per ora
Non mi posso qui spiegar.

CAROLINA

Ci mancava questa ancora
Per più farmi delirar.

FIDALMA

Son qui pronta ... Son qua lesta,
Ma già in piedi ti ritrovo.
Per la gioia che ne provo
Questa man ti do a baciar.

PAOLINO

Non mi prendo tanto ardire.

CAROLINA

Mia signora, pian pianino.

FIDALMA

Bacia, bacia, Paolino,
a Carolina
Non ci avete voi da entrar.

CAROLINA, PAOLINO

Questa certa confidenza
Di fanciulla alla presenza,
Che stia bene non mi par.

FIDALMA

Di qualunque alla presenza
Posso dar tal confidenza
A colui che ho da sposar.

E a ópera inteira, outra vez sem libretto, mas quem quiser acompanhá-lo poderá encontrá-lo AQUI. O vídeo não é lá grandes coisas, mas a cavalo dado etc...


Então chega por hoje, né? Nós nos veremos no próximo século, quando teremos que ter muita paciência, pois acho que irá nos render ao menos uns três posts... Aimeudeus!



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Virados pra Lua

Li recentemente um livro onde a "criatura escrevente" falava sobre a visão que o século XX (lembra-se dele?) tinha sobre sexualidade, em comparação com a visão do século XIX. Até aí, nada de novo... Mas era um livro sobre música, e o cara na verdade estava tentando explicar que essa mudança de visão sobre sexualidade havia afetado a maneira de ouvirmos e entendermos o primeiro movimento da "Sonata ao Luar", do nosso amigo Beetho. Foi uma experiência interessante, confesso, fazer "aquilo" com o Beetho! (Minha desculpa é que eu estava meio bêbado, não tinha nada pra fazer no momento, o Beetho era um cara muito interessante, a conversa estava boa, o vinho estava gostoso, a música era excelente... Resumindo: fiquei curioso e não resisti!)

Claro que a experiência daquela noite não saiu mais de minha cabeça. Passei a escutar a "Sonata ao Luar" o tempo todo (deve ser por isso que não existem ex-"lunáticos": a curiosidade só aumenta....), e comecei a futucar outros compositores que também não tinham conseguido resistir à curiosidade de experimentar esse prazer noturno. E quer saber? Muitos se renderam, ao menos uma vez, a seus encantos!

Então, por falta do que fazer, resolvi compilar uma listinha de exemplos "lunático-clássicos" (Compilar... êita verbo feio! Se alguém descobrir uma só conjugação que preste, vai ganhar um prêmio!) :

Compilemos, pois, e comecemos pelo celebérrimo "Clair de Lune", do Debussy (que, aliás, faz parte de uma suíte, a Suite Bergamasque):


Pierrot Lunaire, op. 21, do Schoenberg. Aqui vai apenas a 1ª parte, "Mondenstrucken":


Tem também a "Melodia Sentimental" (que também é parte de outra suíte, A Floresta do Amazonas) do Villa-Lobos, e uma de suas canções mais conhecidas. TODO MUNDO já gravou isso, em todos os estilos (imagináveis ou não). Até as pessoas que "não suportam" música clássica a adoram:

(Ninguém sabe pronunciar o português direito, mas, excetuando esse "problema", é uma gravação linda, a melhor de todas que já ouvi)




O nosso amigo F. Schubert é outro que compôs canções "lunáticas", como a  "Der Wanderer an den Mond", D. 870, uma de suas mais importantes canções:


Tem muitas outras ainda, pois Schubert parece ter sido fascinado por esse astro (também, basta ver sua "cara de Lua" para notarmos que ele não iria nos decepcionar).


Outra de suas canções, "An den Mond", D. 193 (poema de Ludwig Hölty) é, aliás, uma homenagem à Sonata ao Luar, do Beetho:


(Lindo demais!)

Schumann também musicou esse mesmo poema:

(Quase consegue ser ainda mais linda que a versão do Shcubert)

E Brahms, novidade!, também musicou esse mesmo poema! Mas vamos ouvir outra de suas canções, a "Mondnacht":


O Schumann também tem uma "Mondnacht", para o mesmo poema, claro... TODO MUNDO usava os mesmos poemas zilhões de vezes; alguns até usavam o mesmo poema mais de uma vez, como as duas versões do Schubert (D. 259 e D. 296) para o poema "An den Mond", do Goethe (diferente do "An den Mond", D. 193, daí de cima, que é de outro poeta):


(Para quem está deseperado por saber minha opinião: eu gosto mais da segunda versão)

Há outra canção "An den Mond", dessa vez do Hans Pfitzner, para o mesmo poema do Goethe que Schubert usou:


Ou seja: daria para montar um recital inteiro de canções com apenas 2 ou 3 poemas. (Não sei como é que ninguém pensou nisso antes. Pelo menos EU nunca soube de um recital assim, mas adoraria ouvir! Taí a dica, para quem quiser.)

O Debussy era outro com "cara de Lua":


Claro que ele também não nos decepciona, pois compôs uma renca de obras "lunáticas" (além da "famosésima" "Clair de Lune" daí de cima), entre elas:

"La Terrasse des audiencies au clair de lune", o número 7 do Segundo Livro de Prelúdios:


Ou a canção "Clair de lune: votre âme est un paysage choisi" (poema do Verlaine), que também exite em duas versões:

A versão de 1882:


E a versão de 1891:



E ainda tem a versão do Gabriel Fauré, sobre o mesmo poema:


Tem mais outra "Clair de Lune", da Suíte para órgão, Op. 53, do também francês Louis Vierne, um dos bons compositores franceses da segunda metade do século XIX que praticamente sumiram do repertório (Aliás, os franceses do século XIX eram fascinados por música para órgão, e qualquer dia eu vou ter que "postar um post" sobre esses compositores):


Até a NASA (quem diria?) também já se interessou pela Lua, e alguém lá teve o trabalho de também compilar uma lista bem interessante de músicas "lunáticas", porém com ênfase na música popular americana, cráro: http://moon.nasa.gov/moonsongs.cfm.

Então, só para não dizer que eu não falei da Lua brasileira "popular", aqui vai uma das minhas favoritas, "Lua Branca", de Chiquinha Gonzaga:

(Linda demais!!!!!!)

A Lua, porém, não sobrevive apenas em peças pequenas. Para terminarmos em grande estilo, portanto, vamos para Il Mondo della Luna, a ópera doidinha do Haydn na qual um astrônomo tenta convencer um incauto cidadão da existência de vida lá em cima, e o despacha para lá numa viagem regada a ópio, com direito a encontro com o Imperador da Lua. Eu havia colocado um vídeo da ópera inteira, mas ele foi retirado do YouTube, e teremos que nos contentar com um trechinho minúsculo:


Boa viagem!