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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Tá rolando um clima!

Debate-se, há décadas, se os compositores impressionistas não deveriam ser, na verdade, classificados como simbolistas. Claude Debussy, principalmente, parece ter se sentido sempre muito à vontade entre estes, haja vista suas muitas obras baseadas em poetas simbolistas: (Cinq poèmes de Baudelaire), sua ópera Pelléas et Mélisande (libreto de Maurice Maeterlinck), Prélude à l'après-midi d'un faune (a partir do poema de Mallarmé), entre inúmeras outras.

É inegável, porém, seu impressionismo, muito "visível" em suas formas musicais incompletas, fragmentárias, sua preferências por impressões passageiras, ao invés de um discurso musical mais evolutivo, à la Beethoven ou Wagner.

Essa discussão entre seu Impressionismo e/ou Simbolismo acontece desde que existe Debussy, e os argumentos tendem para um ou outro lado, sem nunca chegarem a qualquer conclusão. O problema, a meu ver (não estou sozinho, claro...), é que Impressionismo é um rótulo essencialmente pictórico, e Simbolismo é essencialmente literário. São movimentos com objetivos diferentes (mas não antagônicos), criados para propósitos não-musicais (como quase todos os rótulos musicais atualmente utilizados, à exceção de Ars nova, do Classicismo - talvez - e de algumas escolas do século XX), e que não necessariamente são encaixáveis à musica.

Para completar, a música, quando tenta retratar alguma coisa, é simbólica por excelência: todos os referenciais descritivos, narrativos, espaciais, são externos à própria música - ou, melhor, externos aos sons. Isso, porém, nunca impediu que compositores tentassem, de uma maneira ou de outra, descrever alguma coisa/lugar/circunstância.

Quer um exemplo básico? Bach, em sua Cantata Ich will den Kreuzstab gerne tragen, BWV 56, logo no segundo compasso da melodia do cantor, usa uma nota com sustenido (dó sustenido) para a palavra Kreuz, que, em alemão, significa tanto cruz quanto sustenido. Quando você ouve um dó sustenido ele não vem acompanhado de uma cruzinha, assim como um X no mapa não significa que no terreno de verdade vai haver um X gigante marcando o local do tesouro; ambos têm a mesma função: simbolizar algo externo ao próprio meio, escondido e enterrado, e você só vai descobrir que o significante está ali se estiver familiarizado com as convenções simbólicas utilizadas por quem fez/compôs o mapa/partitura...

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Outro tipo de simbolismo básico da música é o espacial, tão enraizado nos ouvidos ocidentais que é difícil até o reconhecermos como símbolo: o movimento "pra cima" e "pra baixo" da música, por exemplo, só é interpretado como pra cima ou pra baixo devido à convenção de escrevermos sons mais "altos" no alto na partitura, e sons mais "baixos" na parte de baixo da mesma. Nenhum deles, na verdade, está mais alto ou mais baixo, espacialmente falando, assim como o norte da Terra não está acima do Sul: do lado de fora do universo não existe uma seta indicando "Este lado para cima"!

Esse sobe e desce da música, porém, está tão presente que algumas obras perderiam muito de seus sentidos se, de repente, o referencial espacial fosse retirado. Quer um exemplo? Que tal o nº 3 de Miroirs, "Une Barque sur l'Ocean", do Ravel com suas ondas do mar subindo e descendo, subindo e descendo, subindo e descendo...


Assim como simbolismos abundam (adoro coisas que abundam!) na música (e em todas as outras artes, claro), elementos impressionistas também estão presentes - em um grau ainda maior - mesmo que seja apenas no sentido de passageiro, transitório. A música é essencialmente temporal, claro, e tudo nela é passageiro e transitório: ela só faz sentido quando suas partes aparecem e desaparecem, diferentemente, por exemplo, da arquitetura. Uma obra musical existindo por inteiro em um único momento é tão ilógico quanto imaginar o lado de dentro da Notre Dame existindo sem o lado de fora. O efeito da música pode ser tão duradouro quanto o efeito de uma catedral, mas o "objeto" nunca existe por inteiro. Aliás, nunca existe, apenas acontece.

Junte-se a isso toda a vagueza e imprecisão fundamentais da música e você terá um dos terrenos mais férteis possíveis para o impressionismo: nada na música tem substância, definição, contorno, e mesmo o contorno de uma melodia é, a princípio, apenas uma metáfora. Uma melodia tem um início e um fim temporal, mas não espacial; você pode dobrar a velocidade para fazer a melodia caber na metade do tempo, mas duvido que você consiga fazer uma melodia ocupar menos espaço (a não ser que você a escreva em notas menores, em um papelzinho microscópico...). 

Mas, voltemos ao Debussy. Eu acho que ele, na verdade, era debussiniano, ainda mais se considerarmos que, diferentemente dos pintores impressionistas e dos escritores simbolistas, Debussy não tinha colegas músicos contemporâneos nem remotamente parecidos com ele! Debussy criou um estilo próprio, sui generis, só posteriormente adotado (com ressalvas) por outros compositores. O mais próximo que alguém chegou de compartilhar seu estilo foi Ravel, mas este era mais novo que o próprio criador do estilo, tendo depois enveredado por um caminho muito diferente, bem pouco debussiniano (mas este é um outro assunto!).

Enfim... Você já está ficando maluco com este assunto? Eu, já. Partamos, pois, para o assunto "de verdade" de hoje!

Não importa o que o Debussy seja: o importante, para este post, é sua fascinação por fenômenos climáticos, principalmente aqueles envolvendo água, em todos os seus estados físicos! A expressão "um mar de som", no caso do Debussy, é quase literal, e mostra sua afinidade tanto com os poetas simbolistas e sua mania por água (como em Pelléas) quanto com os pintores impressionistas e seus milhares de paisagens aquáticas ("aguarelas"?):

(Monet, Saint-Georges majeur au crépuscule)

Assim como os impressionistas e simbolistas, Debussy não foi o primeiro, o único, nem o último a se sentir fascinado pela água, mas a presença desse elemento em sua música é constante: nada, em Debussy, é mais recorrente do que a água (nem mesmo a Lua, outra de suas obsessões favoritas). Comecemos, então, pela ópera Pelléas et Melissande, a qual, graças ao Maeterlinck, já nasceu aquática. Tudo na ópera faz referência, de uma maneira ou de outra, à água!

Logo na primeira cena nossa heroína, Mélisande, se encontra com seu futuro marido, Golaud, aos pés de uma fonte...

- Água 1: fonte.

A segunda cena, apesar de ambientada em um aposento do castelo do pai do Golaud, novamente faz referências à água: nesta cena o rei-pai lê uma carta do Golaud, onde este conta de seu casamento com Mélisande. Se a reação do pai for positiva, seu irmão (do Golaud), Pelléas, deverá acender uma tocha (lanterna) na murada do castelo, em frente ao mar; se a reação for negativa, necas de tocha, e o Golaud pegará seu barquinho (supõe-se que ele vai ficar esperando pela resposta dentro de seu barquinho) e nunca mais voltará pra casa.

- Água 2: mar; barquinho.

Cena três: Mélisande e sua BFF (best friend forever) Geneviève estão caminhando nas redondezas do castelo, olhando para o (adivinhem?) mar, e Mélisande (que, além de heroína, também tinha visões), vê um navio e um farol, e prediz que ele (o navio, não o farol) irá afundar.

- Água 3: outro barquinho; farol.

Segundo ato, cena 1: Mélisande agora está sentada à beira de um poço, e nosso futuro herói, Pelléas, ali a encontra e admira seus longos cabelos, quem de tão longos, tocam (adivinhem?) a água. Conversa vai, conversa vem, nossa heroína, apesar de suas visões, não consegue prever que seu anel de casamento irá escorregar de seu dedo e parar lá no fundo da (adivinhem?) água.

- Água 4: poço; cabelo na água, anel na água, tudo na água...

Segundo ato, cena 2: papai-rei está muito doente. Nossa heroína não se conforma, debulha-se em lágrimas, quase morrendo, ela também, afogada... Maridão chega, não vê o anel no dedo da heroína, e esta lhe diz que o perdeu dentro de uma gruta, perto do (adivinhem?) mar. Maridão diz que, quando a maré baixar, ela terá que ir procurar pelo anel.

- Água 5: lágrimas, lágrimas, lágrimas; maré, e gruta (provisoriamente) alagada.

Segundo ato, cena 3: heroína com medo de entrar na caverna sozinha. Pelléas é chamado para acompanhá-la (e mais uma vez a "pré-visão" de nossa heroína não serve para nada...). Vão até a caverna. Heroína, mesmo assim, com medo de entrar, pois está muito escuro, mas nossa velha amiga, a Lua, aparece, iluminando tudo!

- Água 6: nada de novo, mas temos a Lua, pelo menos, e sua influência sobre a maré!

Terceiro ato, cena 1: heroína em seus aposentos, penteando os longos cabelos, em companhia do cunhadão (de bobinha, Mélisande não tem nada!), que, a determinado momento, arruma seus cabelos (da heroína, claro) com raminhos de salgueiro.

- Água 7: salgueiro, que, como todo mundo sabe, costuma deitar seus longos cabelos sobre as águas:


Terceiro ato, cena 2: maridão leva cunhadão para conhecer os subterrâneos do castelo (eita programão!), chegando juntos a um poço de água estagnada, lá nas "entranhas do subsolo das masmorras embaixo do castelo" (repito-me: que programão, véi!). Heroína teve medo de buraco escuro sem água (caverna), e agora é hora de o cunhadão ter medo de buraco escuro com água...

- Água 8: poço estagnado, parado, cheio de monstros!

Terceiro ato, cena 3: cunhadão sai do buraco cheio de água, e, dali mesmo da entrada para o subsolo, olha para cima, e vê a heroína e sua BFF sentadas à uma das janelas do castelo (olhando para o mar?).

- Água 9: nada de novo, aqui. Em compensação, é meio-dia, o Sol está brilhando furiosamente lá em cima, e a Lua está do outro lado do planeta. Supõe-se que a maré está baixa novamente, o mar está lindo e brilhante, inundado de luz, mas nosso cunhadão favorito está ainda na entrada para o poço "mal-assombrado": "O mundo é lindo, o mar é lindo, mas eu estou ainda muito perto demais desse poço sem fundo com cheiro de morte... Carái, véi! Que medo!"

Terceiro ato, cena 4: maridão submete o filho a uma sessão de interrogatório, até que este acaba confessando que viu o cunhadão dar um beijo na heroína num dia em que estava chovendo.

- Água 10: chuva.

Quarto ato, cena 1: cunhadão diz para heroína que papai-rei está melhor de saúde (apesar do chororô de Mélisande, anteriormente), e que ele, cunhadão, vai viajar (de navio, claro!). Antes de viajar, porém, eles combinam de se encontrar junto ao "poço do anel".

- Água 11: repeteco de águas passadas: Nunca fomos tão felizes quanto à beira da água!

Quarto ato, cena 2: maridão ameaça heroína: "Se você não parar de olhar para os outros eu vou fechar seus olhos para sempre, sua isso, sua aquilo!".

- Água 12: nenhuma... mas, pela segunda vez na ópera, há outros líquidos: maridão chegou com um corte na cabeça, sangrando, e, aparentemente, também estava meio bêbado. Antes havia surgido lágrimas, e agora surgem álcool e sangue: a água, pelo visto, está se transformando em substâncias muito mais problemáticas!

- Quarto ato, cena 3: filhinho brincando à beira do "poço do anel", vendo fileiras de ovelhinhas marchando em direção a algum lugar que ele não sabe qual é, mas um prestativo pastor logo lhe informa que as ovelhinhas não estão voltando para casa.

- Água 13: repeteco e antítese, para ninguém ter dúvida daquilo que nos aguarda: água pura + água problemática (ovelhinhas indo para o matadouro).

- Quarto ato, cena 4: cunhadão à beira do "poço do anel", confessando a si mesmo que está a finzaço da heroína. (Não... Jura? Nem havia notado!). Heroína chega, ele confessa a mesma coisa para ela, e ela, claro, também confessa que o amou desde o primeiro momento (desde a primeira vez ele a havia deixado "aguadinha", pelo visto...). Maridão pega os dois no flagra, mata cunhadão, e heroína foge para o mato (o que, a bem da verdade, é meio estranho, pois ela deveria ter corrido para o mar!).

- Água 14: repeteco da Água 13.

Quinto ato: heroína em trabalho de parto. Maridão chega pedindo desculpas, mas mesmo assim a atazana para que ela confesse que havia chegado às vias de fato com o cunhadão. Heroína nega até o último momento, dá à luz seu rebento (que, estranhamente, não chora), e, por falta de perspectiva na vida, resolve morrer.

- Água 15: a fonte secou completamente: heroína dentro do quarto, sem mar, sem poço, sem sequer uma mísera lágrima no rosto de seu filho. Em resumo: no water, no future.

The End


As óperas (as trágicas) costumam acabar por falta de personagens; esta é a única que eu conheço que acaba por falta d´água! Pelléas et Mélisande, ou, Tragédia na Cantareira.

Apesar de não parecer, esta é uma de minhas óperas favoritas de todos os tempos! O único problema é que as montagens recentes insistem em se esquecer de que Pelléas deveria ser encenada dentro de uma piscina, com água brotando, jorrando, subindo, descendo, caindo, se acumulando, apodrecendo, secando, evaporando, espirrando do teto, inundando o teatro, molhando os espectadores, etc, etc, etc. Água, água, água, para todos os lados! Nas montagens modernas depois de um certo tempo você jura estar assistindo à Sansão e Dalila, no meio do deserto. Uma pena... Tadinho do Debussy. Tadinho do Maeterlinck...


(Tá certo que o fundo azul constante remete, obviamente, a agua, mas para mim isso está longe de ser o suficiente!)


Acho que este post está grande o suficiente, e já temos quase 3 horas de música para ouvir. Voltaremos ao Debussy logo depois da próxima chuva!

sábado, 29 de novembro de 2014

Antes tarde do que mais tarde...

Ó só a notícia que descobri AQUI:


A soprano Tati Helene e o contratenor Sergio Anders participam como artistas convidados na estreia brasileira da obra L’incoronazione di Poppea, de Claudio Monteverdi. Numa iniciativa inovadora em Ópera Studio do Estúdio VOCE – Voz, corpo e equilíbrio, dirigido pela renomada soprano carioca Mirna Rubim, que assina a direção geral do espetáculo. A montagem também conta com Marília Zangrandi, dividindo com Helene o papel de Poppea cantando nos dias 11 e 12 de dezembro; com a direção cênica da mundialmente famosa mezzosoprano Graciela Araya e direção musical de Vitor Philomeno.

Serviço:

L’incoronazione di Poppea
Música de Claudio Monteverdi
Libretto de Giovanni Francesco Busenello

10, 11, 12 e 13 de dezembro de 2014 – 20:00hs

Planetário do Rio de Janeiro – Cúpula Carl Sagan
Rua Vice Governador Rubens Berardo, 100 – Gávea, Rio de Janeiro
Informações: (21) 3251-3456



Parece que, finalmente, depois de um ligeiro atraso de 371 anos, teremos a oportunidade de assistir ao vivo a esta ópera, que é, na minha modestíssima (?) opinião, uma das melhores de todos os tempos.

Se alguém quiser enfrentá-la, aconselho a fazê-lo urgentemente. Vale a pena!

(O libreto está AQUI, em italiano)

Aproveite a chance de assistir a uma ópera onde a mocinha não é nem "mocinha" nem morre no final, a virtude não triunfa, e cujo final (amoral? imoral?) já deixou muita gente de cabelo em pé!

sexta-feira, 27 de junho de 2014

IV Festival de Ópera de Brasília


Orquestra Sinfônica inicia apresentações do Festival de Ópera de Brasília

Da Redação, com informações da Secretaria de Cultura

Orquestra Sinfônica inicia apresentações do Festival de Ópera de Brasília 
Foto: Brito / Arquivo
 
Atividades começam nesta quarta-feira (25) e seguem até o mês de agosto

BRASÍLIA (24/6/14) - O auditório do Teatro Pedro Calmon, no Setor Militar Urbano (SMU) será palco, a partir desta quarta-feira (25), do IV Festival de Ópera de Brasília. O evento, que vai até o mês de agosto, promoverá ações culturais na capital.

Segundo o maestro Claudio Cohen, regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS), serão apresentadas diferentes óperas, em três séries. Tosca (composta por Giacomo Puccini, em três atos), será a primeira, e ocorrerá a partir desta quarta (25) a domingo (29).

"Como estamos fora do Teatro Nacional, faremos todo o festival no Teatro Pedro Calmon em formato de concerto. Não vai ser aquela ópera tradicional, com figurinos e tudo mais, mas no formato de concerto elas funcionam bem também", explicou o maestro.

O Teatro Nacional passa por reformas, durante todo este ano, por isso a realização do espetáculo no Teatro Pedro Calmon. Pela programação, em julho, as apresentações serão de uma coletânea, Gala de Ópera, com várias árias (de compositores diferentes). Em agosto, será a vez de A Cartomante (do maestro Jorge Antunes, professor da UnB).

Para Cohen, a OSTNCS tem um público sempre interessado e fiel, que está crescendo: "Estamos investindo cada vez mais nisso, o governo (do DF) tem apoiado bastante, e a gente tem a certeza de que o público da música clássica é muito grande", diz o regente, que acredita que a orquestra atrairá também os turistas nacionais e estrangeiros que vêm a Brasília durante a Copa do Mundo.

SERVIÇO
IV Festival de Ópera de Brasília
Local: Teatro Pedro Calmon (SMU)
Datas e Horários:
* Ópera Tosca, de Giacomo Puccini, com regência do maestro Claudio Cohen
DIAS: 25/06 (quarta), 27/06 (sexta-feira) e 28/06 (sábado), às 20 h; 29/06 (domingo), às 18 h
* Gala de Ópera (várias Árias, de compositores famosos)
18 e 19 de Julho (sexta e sábado), às 20 h
* Ópera A Cartomante, de Jorge Antunes
31/07 (quinta-feira), 1º/08 (sexta-feira) e 02/08 (sábado), às 20 h
A ENTRADA FRANCA PARA TODAS AS APRESENTAÇÕES


Informações retiradas DAQUI.

Vá, mas não me chame! Não tenho nenhuma paciência com ópera em concerto; acho que fica parecendo um gibi em braile... E tenho menos paciência ainda com pout-pourri de árias famosas...

Terei que esperar pelo próximo Festival, e rezo aos céus para que no ano que vem se esqueçam um pouco de Puccini!

Também rezo aos céus para que Brasília pare de ter Festivais de Ópera e comece a ter TEMPORADAS de ópera, como qualquer cidade que se preze... E, já que estou sonhando, também quero um pônei!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Estilistas na fase oral 4 : Classicismo 2.0

Aimeudeus... não vou terminar nunca este assunto. Já estou ficando cansado, e ainda faltam os séculos XIX e XX. Socorro!!!!!!!!

Enfim, vamos lá: Classicismo 2.0! Já tratamos de música vocal de igreja, então vamos agora para música vocal de câmara e de teatro. 

Música vocal cubicularis:

Eu tenho a impressão de que o Classicismo é a primeira época na história da música em que a música vocal de câmara não tinha muita importância. Quer dizer... claro que existem exemplos, aos montes, mas o século XVIII tinha basicamente duas preocupações: ópera e música instrumental (sonatas, concertos e, na segunda metade do século, sinfonias). A música instrumental desse período é tão absurdamente importante e original,  abriu tantas novas possibilidades, que alguns gêneros muito característicos da música vocal parecem sumir durante este período.

Até mesmo as óperas dessa época (toneladas!) não são capazes e competir com a música instrumental. Pela primeira vez a música instrumental era o campo onde novas ideias surgiam. Até então a evolução da música esteve (quase) sempre confinada á música vocal - vide a importância da música sacra, das cantatas (sacras ou seculares), do madrigal, da ópera, no desenvolvimento dos estilos e técnicas musicais.

A paisagem do século XVIII, quando vista daqui do século XXI, parece uma floresta verde de música instrumental, apenas salpicada de vez em quando por um ipê amarelo de música vocal. Quem, hoje em dia, conhece música vocal do século XVIII em quantidade suficiente para competir com a música instrumental desse período? Ainda existem os ipês amarelos, pontinhos esparsos no matagal, exemplares maravilhosos que sobreviveram isolados, alheios ao que acontece (e aconteceu) no restante da floresta. A maior parte deles, porém, morreu...

O único compositor de ópera daquela época que realmente sobreviveu até hoje é (adivinha quem?) Mozart, claro, e isso porque, mais que qualquer ouro compositor de ópera da época, ele tinha absoluto domínio da música instrumental. Suas óperas representam quase que a totalidade dos ipês amarelos sobreviventes. Existem outros, obviamente, mas são poucos: Gluck, Cherubini, Cimarosa e uma meia dúzia de 2 ou 3 compositores que, esporadicamente, são desenterrados e colocados à prova novamente: "Vamos tirar a múmia do sarcófago e descobrir se ela ainda consegue ficar em pé!" Nessa categoria estão Salieri, Gréty, Paisiello, e alguns poucos outros.

Para piorar a situação da música vocal, o repertório "extra-igreja e extra-operístico" (lieder, chanson, árias de concerto) ainda estava engatinhando, só pegando embalo no início do século XIX. Se bem que, no caso desse repertório, o motivo pode ser outro: existe uma grande quantidade de obras que não foi devidamente catalogado e/ou editado até hoje, e mesmo aquilo que foi editado não entrou no repertório "comum" dos concertos. Cantam-se algumas canções e árias de concerto de Mozart até hoje, mas quem é que conhece as canções do Haydn? (Existem dezenas!!!). Olha só essa aqui, "A Pastoral Song" (é em inglês mesmo, ok?), como é linda!:


My mother bids me bind my hair
With bands of rosy hue,
Tie up my sleeves with ribbons rare,
And lace my bodice blue.

For why, she cries, sit still and weep,
While others dance and play?
Alas! I scarce can go or creep,
While Lubin is away.

'Tis sad to think the days are gone,
When those we love were near;
I sit upon this mossy stone,
And sigh when none can hear.

And while I spin my flaxen thread,
And sing my simple lay,
The village seems asleep, or dead,
Now Lubin is away.

Sobrevive, também, um repertório que originalmente era operístico, mas cujas molduras moreram: muitas múmias viraram pó, restando apenas uma mão ou uma orelha ainda vivas. São árias de ópera que tiveram a chance de ressuscitar como música de câmara, como, por exemplo, "O Del mio dolce ardor", que é a Pour Elise  da música vocal - todo cantor, obrigatoriamente, já passou por ela em algum momento da vida, e que é (era?) uma ária da ópera Paride ed Elena, do Gluck, e que mereceu ter sobrevivido. É linda, ainda mais quando interpretada por um profissional:


Espero que ainda ressuscitem mais coisas desse repertório, porém, até lá, não posso fazer nada... Passemos logo para a ópera, deixando para trás esse repertório vocal de câmara que já foi deixado para trás há muito mais tempo.

E agora eu estou no sal! Prometi que não iria falar de Mozart, então não posso colocar nada de Don Giovanni, Così fan Tutte, A Flauta Mágica, Le Nozze di Figaro, O Rapto do Serralho, Idomeneo, Mitridate, re di Ponto, La Clemenza di Tito (sem contar as outras menos conhecidas). Saco!

Tirando Mozart, sobrou muito pouco, e algumas das exceções mais espetaculares são as óperas (algumas delas) do Gluck ("dono" dessa "ária pedaço-de-múmia" daí de cima), principalmente Alceste, Orphée et Eurydice, Iphigénie en Aulide, e Iphigénie en Tauride. Todas lindas, todas ainda no repertório, todas ainda conhecidas e ainda apresentadas atualmente (menos em Brasília, claro...), e todas em francês, pois foram compostas para serem apresentadas em Paris, apesar de Gluck ser alemão.

Ó só que linda ária (com coro) "Ô malheureuse Iphigénie", umas das mais conhecidas (e usada na trilha sonora do filme Ligações Perigosas), da ópera Iphigénie en Tauride:


IPHIGENIE

Ô malheureuse Iphigénie!
Ta famille est anéantie!
Vous n'avez plus de rois, je n'ai plus de parents,
Mêlez vos cris plaintifs à mes gémissements!
Vous n'avez plus de rois, etc.
O malheureuse Iphigénie!
Ta famille est anéantie! etc.

CHOEUR DES PRÊTRESSES

Mêlons nos cris plaintifs à ses gémissements!

IPHIGÉNIE

Vous n'avez plus de rois, je n'ai plus de parents.

CHOEUR DES PRÊTRESSES

Nous n'avions d'espérance, hélas! que dans Oreste!
Nous avons tout perdu, nul espoir ne nous reste!

Para quem quiser enfrentar a ópera inteira (com legendas), aqui vai a versão integral. Tire um dia livre e faça a si mesmo o favor de assisti-la inteira, é linda:

(Só encontrei o libreto no original francês, com uma versão em alemão, AQUI)

Já que não posso colocar Mozart, vou ter que colocar alguma coisa do tão difamado Antonio Salieri. A ária "Par les larmes dont votre fille", da ópera Les Danaïdes (outra ópera encomendada para Paris), por exemplo, é linda!:


Não encontrei o libretto da ópera em lugar algum, mas se alguém se atrever a enfrentar o original francês, aqui está ela, infelizmente em versão de concerto (sem encenação):


E, já que falamos de Salieri, vamos ouvir Il Burbero di buon core, do espanhol Vicente Martín y Soler, que praticamente só sobrevive na Espanha (injustamente, porque é muito divertida!), e cujo libretto foi escrito por Lorenzo Da Ponte, o libretista responsável por Le Nozze di Figaro (que é a segunda parte de O Barbeiro), Così fan tutte, Don Giovanni, além de várias outras óperas do próprio Martín y Soler e do Salieri. Com vocês, um pequeno trecho de Il Burbero:


Aqui, as duas partes da versão integral (sem legendas novamente):



(ATUALIZAÇÃO: viu como eu tinha colocado a ópera inteira? O YT, porém, a jogou fora, e não existe mais nenhuma versão integral voando pela Internet, pelo visto...)

Martín y Soler e Salieri são considerados apenas como sub-Mozarts, hoje em dia, mas não dá para ser de outra maneira: há poucos, em quaisquer períodos da música, que não sejam sub-Mozarts. A história está cheia de sub-Shakespeares, sub-Dantes, sub-Da Vincis, sub-etc-etc-etc, que também merecem sobreviver!

Ó só outro "sub-Mozart", Domenico Cimarosa, cuja ópera Il Matrimonio Segreto foi composta para Viena, e lá estreou pouco mais de um mês após a morte de Mozart. É uma das poucas óperas deste período que ainda são reapresentadas regularmente e que não são do Mozart. Aqui, um trecho do segundo ato:


FIDALMA

Ebbene in questo punto
Vi do la mia parola
Che sarete mio sposo...

PAOLINO

Sposo?

FIDALMA

Sì, caro mio.

PAOLINO

Io?

FIDALMA

Sì, mio caro,
Sì, mio bene, consolati ...
Ma di color tu cangi? ... E che cos'hai?

PAOLINO

(Qual nuovo contrattempo è questo mai!)
Sento, ahimè! che mi vien male,
Già mi manca quasi il fiato!

FIDALMA

Non è niente, sposo amato,
Questo è effetto del piacer.

PAOLINO

Per pietà, che in svenimento
Io mi sento già cader.

FIDALMA

E' l'effetto del contento,
Passerà, no, non temer.
Mio caro Paolino
Ma! .... certo è svenuto,
Porgiamogli aiuto ...
C'è alcuno di là?
L'amore, il contento
Vedete che fa?

CAROLINA

Ma cosa è accaduto?
Che cosa è mai stato?

FIDALMA

Il povero giovine
Di me innamorato,
Per gioia in deliquio
Vedete che sta.
Io vado a pigliare
Un certo elisire,
Non state a partire.
Restatevi qua.

CAROLINA

(Che creder, che dire
Da me non si sa.)
Giusto Cielo! Quale affanno,
Qual sospetto mi martella!
Su, ti scuoti, su favella!
Io mi sento lacerar.

PAOLINO

Carolina, deh, va via!

CAROLINA

Tu invaghito di mia zia,
E mi vieni ad ingannar.

PAOLINO

Taci, taci, che per ora
Non mi posso qui spiegar.

CAROLINA

Ci mancava questa ancora
Per più farmi delirar.

FIDALMA

Son qui pronta ... Son qua lesta,
Ma già in piedi ti ritrovo.
Per la gioia che ne provo
Questa man ti do a baciar.

PAOLINO

Non mi prendo tanto ardire.

CAROLINA

Mia signora, pian pianino.

FIDALMA

Bacia, bacia, Paolino,
a Carolina
Non ci avete voi da entrar.

CAROLINA, PAOLINO

Questa certa confidenza
Di fanciulla alla presenza,
Che stia bene non mi par.

FIDALMA

Di qualunque alla presenza
Posso dar tal confidenza
A colui che ho da sposar.

E a ópera inteira, outra vez sem libretto, mas quem quiser acompanhá-lo poderá encontrá-lo AQUI. O vídeo não é lá grandes coisas, mas a cavalo dado etc...


Então chega por hoje, né? Nós nos veremos no próximo século, quando teremos que ter muita paciência, pois acho que irá nos render ao menos uns três posts... Aimeudeus!



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Virados pra Lua

Li recentemente um livro onde a "criatura escrevente" falava sobre a visão que o século XX (lembra-se dele?) tinha sobre sexualidade, em comparação com a visão do século XIX. Até aí, nada de novo... Mas era um livro sobre música, e o cara na verdade estava tentando explicar que essa mudança de visão sobre sexualidade havia afetado a maneira de ouvirmos e entendermos o primeiro movimento da "Sonata ao Luar", do nosso amigo Beetho. Foi uma experiência interessante, confesso, fazer "aquilo" com o Beetho! (Minha desculpa é que eu estava meio bêbado, não tinha nada pra fazer no momento, o Beetho era um cara muito interessante, a conversa estava boa, o vinho estava gostoso, a música era excelente... Resumindo: fiquei curioso e não resisti!)

Claro que a experiência daquela noite não saiu mais de minha cabeça. Passei a escutar a "Sonata ao Luar" o tempo todo (deve ser por isso que não existem ex-"lunáticos": a curiosidade só aumenta....), e comecei a futucar outros compositores que também não tinham conseguido resistir à curiosidade de experimentar esse prazer noturno. E quer saber? Muitos se renderam, ao menos uma vez, a seus encantos!

Então, por falta do que fazer, resolvi compilar uma listinha de exemplos "lunático-clássicos" (Compilar... êita verbo feio! Se alguém descobrir uma só conjugação que preste, vai ganhar um prêmio!) :

Compilemos, pois, e comecemos pelo celebérrimo "Clair de Lune", do Debussy (que, aliás, faz parte de uma suíte, a Suite Bergamasque):


Pierrot Lunaire, op. 21, do Schoenberg. Aqui vai apenas a 1ª parte, "Mondenstrucken":


Tem também a "Melodia Sentimental" (que também é parte de outra suíte, A Floresta do Amazonas) do Villa-Lobos, e uma de suas canções mais conhecidas. TODO MUNDO já gravou isso, em todos os estilos (imagináveis ou não). Até as pessoas que "não suportam" música clássica a adoram:

(Ninguém sabe pronunciar o português direito, mas, excetuando esse "problema", é uma gravação linda, a melhor de todas que já ouvi)




O nosso amigo F. Schubert é outro que compôs canções "lunáticas", como a  "Der Wanderer an den Mond", D. 870, uma de suas mais importantes canções:


Tem muitas outras ainda, pois Schubert parece ter sido fascinado por esse astro (também, basta ver sua "cara de Lua" para notarmos que ele não iria nos decepcionar).


Outra de suas canções, "An den Mond", D. 193 (poema de Ludwig Hölty) é, aliás, uma homenagem à Sonata ao Luar, do Beetho:


(Lindo demais!)

Schumann também musicou esse mesmo poema:

(Quase consegue ser ainda mais linda que a versão do Shcubert)

E Brahms, novidade!, também musicou esse mesmo poema! Mas vamos ouvir outra de suas canções, a "Mondnacht":


O Schumann também tem uma "Mondnacht", para o mesmo poema, claro... TODO MUNDO usava os mesmos poemas zilhões de vezes; alguns até usavam o mesmo poema mais de uma vez, como as duas versões do Schubert (D. 259 e D. 296) para o poema "An den Mond", do Goethe (diferente do "An den Mond", D. 193, daí de cima, que é de outro poeta):


(Para quem está deseperado por saber minha opinião: eu gosto mais da segunda versão)

Há outra canção "An den Mond", dessa vez do Hans Pfitzner, para o mesmo poema do Goethe que Schubert usou:


Ou seja: daria para montar um recital inteiro de canções com apenas 2 ou 3 poemas. (Não sei como é que ninguém pensou nisso antes. Pelo menos EU nunca soube de um recital assim, mas adoraria ouvir! Taí a dica, para quem quiser.)

O Debussy era outro com "cara de Lua":


Claro que ele também não nos decepciona, pois compôs uma renca de obras "lunáticas" (além da "famosésima" "Clair de Lune" daí de cima), entre elas:

"La Terrasse des audiencies au clair de lune", o número 7 do Segundo Livro de Prelúdios:


Ou a canção "Clair de lune: votre âme est un paysage choisi" (poema do Verlaine), que também exite em duas versões:

A versão de 1882:


E a versão de 1891:



E ainda tem a versão do Gabriel Fauré, sobre o mesmo poema:


Tem mais outra "Clair de Lune", da Suíte para órgão, Op. 53, do também francês Louis Vierne, um dos bons compositores franceses da segunda metade do século XIX que praticamente sumiram do repertório (Aliás, os franceses do século XIX eram fascinados por música para órgão, e qualquer dia eu vou ter que "postar um post" sobre esses compositores):


Até a NASA (quem diria?) também já se interessou pela Lua, e alguém lá teve o trabalho de também compilar uma lista bem interessante de músicas "lunáticas", porém com ênfase na música popular americana, cráro: http://moon.nasa.gov/moonsongs.cfm.

Então, só para não dizer que eu não falei da Lua brasileira "popular", aqui vai uma das minhas favoritas, "Lua Branca", de Chiquinha Gonzaga:

(Linda demais!!!!!!)

A Lua, porém, não sobrevive apenas em peças pequenas. Para terminarmos em grande estilo, portanto, vamos para Il Mondo della Luna, a ópera doidinha do Haydn na qual um astrônomo tenta convencer um incauto cidadão da existência de vida lá em cima, e o despacha para lá numa viagem regada a ópio, com direito a encontro com o Imperador da Lua. Eu havia colocado um vídeo da ópera inteira, mas ele foi retirado do YouTube, e teremos que nos contentar com um trechinho minúsculo:


Boa viagem!

terça-feira, 11 de junho de 2013

E, por falar em ópera:






Lá vamos nós, para o III Festival de Ópera de Brasília, de 12 de junho a 7 de julho.

Em ordem "anticronológica" de apresentações, teremos:

- Olga, sobre Olga Benário e Luiz Carlos Prestes, de Jorge Antunes. Ópera recentíssima (estreou em 2006), a qual creio irá fazer os ouvintes "tradicionais" se revirarem em suas cadeiras. Não conheço a dita-cuja ainda, mas estou doido para ser apresentado a ela. Não costumo ser do tipo "não conheço mas já não gosto", e adoro  ser apresentado a coisas novas. No mínimo, sempre pode render reclamações, críticas e discussões, depois, o que também é divertido! Parabéns ao Festival por terem incluído algo diferente!

- Verdi e Wagner. Tá certo... Eu sei que o mundo inteiro está comemorando o bicentenário do nascimento dos dois, mas sinceramente ODEIO trechos de óperas! É como ir a uma confeitaria, pedir uma Torta Marta Rocha, e te trazerem apenas o suspiro (tá aqui a receita, se alguém quiser se aventurar a fazer e me dar metade de presente!). Acho um saco pedaços soltos de ópera, ainda mais sendo dois compositores diferentes misturados, e em versão de concerto, sem cenários nem nada. Não dá nem pra chamar de Frankenstein, pois duvido que os pedaços se encaixem direito. Vá, mas não me chame!

- E, para variar, teremos (adivinhe o quê?) Carmen, do Bizet. Adoro, é uma das preferidas de todo mundo, divertida, trágica, linda, boa de ver e ouvir, mas estou imaginando o dia em que o Festival de Ópera de Brasília será conhecido como Festival da Ópera Carmen e Algumas Outras Mais Que Ainda Não Sabemos Quais de Brasília. Estou exagerando, como sempre, mas parece que Brasília é a capital mundial da Carmen, proporcionalmente ao restante da programação operística da cidade.

Ainda estou pensando se irei, novamente, vê-la. Mas... quando a fome é muita, (quase) qualquer coisa é melhor que nada!


Aviso: ao contrário da última edição, que era gratuita, parece que os ingressos custarão R$ 15,00 (meia) e R$ 30,00 (inteira).


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Ercole su’l Termodonte





Assisti há algum tempo a esta ópera de Vivaldi (em DVD - quem me dera tivesse sido ao vivo), numa montagem pelo Il Complesso Barocco, regido por Alan Curtis. Uma ária linda seguida de outra ária linda, intercalada com alguns duetos lindos, mais algumas árias lindas seguidas de algumas árias mais-ou-menos, tudo vivaldiano até o osso. Para quem gosta de Vivaldi - quase todo mundo - é um prato cheio!

Como sói - adoro esse verbo! - acontecer nas óperas dessa época (Barroco), a ação (?) é meio estática (!): eu canto, tu cantas, nós cantamos juntos; depois tu cantas, outro tu canta, e vós cantais juntos; depois ele canta, ela canta, e daí eles(adivinhe?) - cantam juntos... Bem variado, não? E eu fiz questão de repetir a sequência três vezes porque a ópera séria barroca também não costuma se contentar com um só casal de protagonistas: pra que economizar e colocar em cena um só casal de cantores principais se, pelo triplo do preço, eu posso contratar mais dois casais?

O libreto é baseado (baseado no sentido de "fumaram unzinho e depois foram escrever o libreto" - o que não é nenhuma novidade, em se tratando de ópera) em um dos Trabalhos de Hércules (jogue no Google e descubra qual!). Meu conselho: se for assistir à esta ópera, decore o libreto antes (não dá muito trabalho, pois deve se resumir a 2 ou 3 páginas, com espaço dois), ou leia a legenda inicial de cada um dos números (caso não domine o italiano) e depois feche os olhos para ouvir a música, que é linda!


ABRE PARÊNTESES (

Por falar nisso, números é o termo utilizado para cada um dos trechos de uma ópera (ária, duetos, etc); ou seja, para cada um dos "movimentos" de uma ópera (ou oratório, ou cantata).


) FECHA PARÊNTESES


Votando ao Hércules: fechar os olhos pode ser a solução para se ouvir muitas óperas barrocas mas, neste caso específico, talvez você queira manter os olhos abertos, pois o diretor apostou MUITAS fichas no cantor que faz o papel de Hércules, Zachary Stains. E, quer saber?, ele canta muito bem! Depois de um tempo você acaba até se esquecendo que seu figurino se resume a uma pele de leão jogada sobre os ombros (que serve - a pele, não os ombros - como um lugar para ele pôr as mãos, de vez em quando, pois não há um mísero bolsinho disponível por perto). Mas ele não se constrange jamais, e não se envergonha em momento algum por querer se fazer passar por Hércules (eu também não me envergonharia, se fosse parecido com ele...).

Mas, minto... Acho que ele se constrange, sim, com a "roupa nova do rei" que está usando. Pelo menos no início, seu desconforto é audível (apesar de não ser visível), mas depois ele acaba expondo, além do corpo, a competência vocal!



Obviamente esse foi o grande (sem trocadilho, please) chamariz da montagem, que é muito modesta em termos de:

– palco, que é pequeno;

– tamanho da plateia, que parece ter no máximo 8 pessoas;

– cenário, que é enfadonho e desnecessariamente fálico. Para que colocar enormes pênis no cenário se todo mundo vai olhar só para o do cantor? Tá certo que o diretor John Pascoe copiou um famoso monumento fálico em ruínas da ilha de Delos, mas supõe-se que a ópera se passe em Termodonte (Rio Terme, na Turquia), então essa desculpa não vale.



Único senão realmente incomodativo a respeito dos cantores (homens), é o segundo papel principal masculino, Teseu, cantado pelo contratenor Randall Scotting. Os papéis hoje cantados por contratenores foram originalmente escritos para castrati, e são papéis masculinos, o que soa muito estranho para nós, modernos: imagine o Júlio César, imperador de Roma, general de exército, senhor de metade do universo habitado, cantando com a voz parecida com a da Tetê Espíndola, como na ópera Giulio Cesare do Handel); o efeito, para nossos ouvidos do século XXI, é um tanto quanto artificial; parece que os ouvidos estão fora de sincronia com os olhos: o Tarzan abre a boca, mas a voz é da Jane.



E o problema com o Randall Scotting é esse mesmo: além de você estar olhando o Tarzan e ouvindo a Jane, o próprio Tarzan parece estar pensando que é a Jane, o que só aumenta a confusão... “Estou vendo o Tarzan, porém ouvindo a Jane, e o Tarzan é delicado como a Jane, mas tem o tamanho do Tarzan, e está de saia como a Jane, porém tem as pernas do Tarzan”. Depois de 15 minutos de confusão seu cérebro desiste de tentar entender o que está acontecendo e se desliga a cada vez que Tarzan/Jane aparece no palco. Tente religá-lo, pois, no decorrer da ópera, o cantor acaba se convencendo de que ele é o Tarzan/Teseu, e você acaba descobrindo que ele também canta muito bem!


Na verdade os cantores são melhores que as cantoras, melhores principalmente que as sopranos. Após um início problemático, os dois cantores principais vão melhorando conforme a ópera se desenrola. Já as sopranos, sinto informar, deixam bastante a desejar. As vozes, além de duras, pecam por tentarem ser expressivas, e acabam virando o balde: é tanta tentativa de expressão que, depois da segunda ária de cada uma das sopranos, você começa a achar que elas estão encalhadas... Sutileza na interpretação: zero! Já a mezzo-soprano Mary-Ellen Nesi (Antíope) é outra história! Voz linda, timbre lindo, expressiva.

Agora, uma palhinha:



E a ópera inteira, para quem quiser se atreVER:



Apesar dos pesares, no cômputo geral, nota 8! Afinal, quantas óperas do Vivaldi você já viu? Para mim, qualquer chance de se ver algo diferente já vale pelo menos uma nota 5, ainda mais numa montagem que, apesar de não ser excepcional, é muito melhor que muita Tosca tosca que se vê por aí. Se conseguir encontrar o DVD, assista! Mas deixo um aviso aos puristas de plantão: a ópera foi descoberta recentemente, numa cópia incompleta. A versão apresenta é uma reconstrução (por Alessandro Ciccolini), e nem toda a música é do próprio Vivaldi.