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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Como levar um estilista para a câmara: Barroco

A série Estilistas na fase oral nem acabou e eu já estou querendo começar com a Como levar um estilista para a câmara... Enjoei de música vocal, por hora. Além do mais, depois de uma dose de música do século XX, eu aposto que tem gente (se é que alguém lê isso aqui) que está querendo algo mais "tradicional". Então, vamos lá!

Tá bom... tá bom... Música de câmara não é exatamente uma invenção do Barroco, eu sei. Confesso, porém, que não quero falar do repertório camerístico anterior ao século XVII. Primeiro, porque não sou competente mesmo; segundo, porque as épocas antes do Barroco eram dominadas pela música vocal - claro que se fazia música instrumental, mas prefiro deixá-la de lado, para não entrar em discussões intermináveis. Em terceiro lugar, porque tô com preguiça.

Este é outro post inútil, pois todo mundo gosta do Barroco e são poucos os que se atrevem a cometer o pecado sem remissão de torcer o nariz para a música desta época. Como todo mundo também conhece muita coisa desse período, tentarei colocar exemplos menos "populares", quando possível. Ah, também estou com preguiça de escrever, então este post, provavelmente, se resumirá a uma lista de vídeos.

Isto posted, vamos lá!

Comecemos com um dos pais do Barroco, Girolamo Frescobaldi. Também, com um nome desses, ele só poderia ser muito bom ou muito ruim; para nossa sorte, ele resolveu ser muito bom, e quase tudo que ele fez está nessa categoria. Hoje ele é mais lembrado por suas composições para órgão, mas também tem bastante música de câmara, agrupada num livro de Canzoni per sonare con ogni sorte di stromenti. Só alguminhas, aqui:




Para quem gostou, nesse próximo vídeo tem mais de 2 horas só de canzoni:


Outro repertório relativamente desconhecidos são as sonatas do Heinrich Ignaz von Biber. Há dezenas de sonatas, e algumas das mais famosas são aquelas conhecidas como Mysteriensonaten (ou Rosenkranzsonaten) - Sonatas Mistério (ou Sonatas do Rosário), para violino e contínuo. Aqui, a primeira, "Anunciação":


E a segunda, "Visitação":


São 15 sonatas (mais uma Passacaglia, para violino solo); pode procurar e ouvir todas, são lindas!

Também tem a música de câmara de Baldassare Galuppi, que foi muito famoso em sua época, mas que só recentemente tem sido pouco a pouco ressucitado. Com vocês, sua Trio sonata para Oboé, Flauta e Contínuo, em sol maior:


A maioria das obras instrumentais do Galuppi, porém, ainda aguardam na fila da ressurreição. Enquanto isso não acontece ouviremos a linda Suíte para Viola da gamba e Contínuo, em dó menor, do francês Marin Marais:

Primeira parte:


Segunda parte:


Todo mundo conhece o Adagio do Albinoni (apesar de sua autoria mais do que duvidosa), mas pouca gente já ouviu qualquer outra obra deste compositor. É uma pena, pois há uma imensa quantidade de boa música instrumental do Tomaso Albinoni, entre elas a Sonata para Violino e Contínuo, em ré menor, So. 26:


Pouco se ouve também da música instrumental de Henry Purcell. E não é por falta de qualidade, como fica óbvio ao ouvirmos, por exemplo, sua Sonata in four parts no. 6, em sol menor, Z 807:


Para quem ainda não se convenceu de que há toneladas de boa música barroca pouco ouvida, vamos a mais um exemplo, agora do François Couperin, conhecido principalmente por sua música para cravo, mas cuja obra camerística também é muito importante. Ó só sua maravilhosa Sonate en quatuor "La Suitane", em ré menor:



Ou a Trio-sonata "Le Parnasse, ou l'apothéose de Corelli", em si menor - como dizem no Goiás: "chega dói" de tão linda!


O problema com o Barroco - nosso problema com o Barroco, na verdade - é que escolhe-se um gênero para cada compositor, e o restante de suas músicas fica relegado a segundo plano. De Couperin só ouvimos música para cravo; de Purcell, suas óperas, de Albinoni, só seu (pseudo) Adagio; de Handel, o Messias, algumas árias de óperas, Música para os Reais Fogos de Artifício e Música Aquática). A exceção é Bach, cuja obra inteira é ouvida mais ou menos frequentemente (em outras paragens que não Brasilia, claro).

Mas, voltemos ao assunto. Outro compositor barroco relativamente pouco ouvido é o Giuseppe Torelli, um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento do concerto. Ó só sua Sonata em ré maior, G. 1, para trompete, cordas e contínuo. É sonata, mas na verdade é um concerto para trompete. Aliás, nessa época em questão (final do século XVII), a nomenclatura da música é tudo menos exata. Podemos encontrar sinfonias, concertos, sonatas, que são praticamente indistinguíveis uns dos outros em termos de forma, estrutura, instrumentação:


Também tem o Arcangelo Corelli, bem mais conhecido e executado que o Torelli. Já o ouvimos aqui, mas qualquer desculpa vale para se ouvir Corelli, um dos primeiros grandes compositores para violino:


Mais um exemplo do Corelli, só porque eu o adoro:


Também tem o Biaggio Marini, mais antigo que Corelli e Torelli, um dos criadores da música de câmara "de verdade". Vamos ouvir primeiro sua Pasacaglia em sol menor, de seu Op. 22, Per ogni sorte di strumento musicale: diversi generi di sonate, da chiesa, e da camera:


E agora a Sonata in ecco con tre violini, do Op. 8 (Sonate, symphonie, canzoni, passe'mezzi, baletti, corenti, gagliarde e retornelli), uma de suas obras mais conhecidas:


Para terminarmos com o post de hoje, vamos com mais um francês, Jean-Philippe Rameau: Pièces de clavecin en concert, nº 1, em dó menor, com seus movimentos "La Coulicam", "La Livri" e "La Vézinet":



Boa audição, e até a próxima"

segunda-feira, 10 de março de 2014

A 2 é bom, mas a 3 é melhor ainda!

Depois de A 2 é bom!, que eu postei há séculos, já estava mais do que na hora de chamarmos mais um parceiro e experimentarmos algumas outras cositas más que podem "se assuceder" em qualquer câmara que se preze.

Não falarei de trios compostos antes do período Clássico porque, como todo mundo já viu aqui no blog, um trio não necessariamente era composto de 3 músicos... Podia ser 4, 5, 6, e apenas durante o Classicismo é que trio passa a significar, literalmente, 3.

Mesmo assim, como também já vimos por aqui, o trio clássico começou como 1+2 (piano + dois instrumentos quaisquer), onde os 2 só estão ali para alegrar o 1, para que ele não se sinta muito sozinho. O Trio em sol maior, Hob. XV/25, do meu grande amigo Joseph Haydn, porém, já merece o rótulo de "Trio de verdade":


Delicioso! O terceiro movimento parece um cachorro perseguindo o próprio rabo! Poderíamos passar o post inteiro ouvindo só Haydn. Só de trios tem mais de 40! Eu adoraria, mas temos que seguir com nossa jornada câmara adentro.

Não dá para pensar em Haydn sem automaticamente me lembrar de Mozart (eu e todo mundo, claro), mas não falarei dele, hoje, porque todo mundo já sabe que ele faz tudo direito (inclusive a 3). Também vou deixar o Beetho de fora, e partir para outros trios posteriores, pois já ouvimos um de seus trios em A 2 é bom! (um movimento só), e todo mundo conhece todos os restantes, claro... Não conhece? Não faz mal! Algum dias trataremos do Beetho num post exclusivo - talvez!

Um dos trios pós-Beethoven mais famosos é o Trio em mi bemol maior, para Violino, Violoncelo e Piano, Op. 100, D. 929, do Schubert. Todo mundo o conhece, e todo mundo gosta. Até os vampiros gostam dele, apesar de o Trio lhes ter sido apresentado numa versão muito reduzida, onde até a melodia é levemente simplificada, não me pergunte o porquê:


O movimento inteiro é esse aqui:


Todo mundo que gosta de música clássica conhece este Trio, mas, caso alguém tenha estado embaixo de alguma pedra quando o Schubert passou por perto, aqui está a obra completa:


Depois desse exemplo ficou difícil continuar com o assunto... Quase todos os outros trios, agora, vão parecer meio "nhém-nhém".


Pausa para tirarmos o Schubert das orelhas

Você sabia que a palavra trio, em música, pode designar outras coisas também? Não é nenhuma novidade, porém, já que tudo em música é uma bagunça. O nome trio pode ser dado - e é - ao trecho intercalado, por exemplo, entre as duas repetições de um minueto (entre outras danças). Ó só o Minueto e Trio em sol maior, WoO 10, nº 2, do Beetho:

(Tá bom, eu sei, eu acabei falando sobre o Beetho. Mas foi algo muito bobo; nem valeu...)

Ó só também o Scherzo e Trio, da Sonatina para Violino e Piano, Op. 100, do Dvorák: 


Ou o Scherzo e Trio, da Sonata nº 3, em dó maior, Op. 2, nº 3, do Beetho (ó ele de novo aqui!). E está certa a numeração, ok? Ela é a sonata nº 3 (da série de 32 sonatas do Beetho), e também é a peça nº 3 dentro do Opus nº 2; portanto, "nº 3, op. 2, nº 3":


Essas gravações não são lá grandes coisas, mas pelo menos servem ao propósito de mostrar trios que não são "Trios", e para esvaziarmos nossos ouvidos.

Fim da Pausa

Estamos agora prontos - espero - para voltarmos ao assunto de antes, e ouvirmos novamente o terceiro movimento do Trio do Schubert de lá de cima, caso alguém tenha deixado de notar que esse Trio também tem um trio em seu terceiro movimento (Scherzo e Trio). O Trio do Trio começa em 2:59 e vai até 5:22 (é... o Trio é maior que o Scherzo!):


Ufa... Chega de Schubert! 

Tá na hora de ouvirmos outro grande trio para violino, cello e piano, o Trio nº 1, em ré menor, Op. 49, do Mendelssohn. Por falar nisso, os trios para piano piano, cello e violino são conhecidos - obviamente - como trios com piano, para diferenciá-los de outras combinações de instrumentos. Se não for exatamente esta formação, eles terão nomes diferentes, como, por exemplo, Trio para Piano, Trompa e Violino, Trio para Cordas, Trio para Flauta, Clarineta e Fagote, etc, etc, etc. Trio com Piano refere-se sempre a piano+violoncelo+violino. Mas, voltando ao Mendelssohn: segurem-se às suas cadeiras, principalmente durante o primeiro movimento, pois dá uma vontade louca de sair correndo pela sala arrancando todos cabelos (inclusive os da cabeça!):


O Mendelssohn também tem o Trio com Piano nº 2, em dó menor, Op. 66, mas que não é tão espetacular quanto o primeiro, eu acho. Apesar disso, seu 1º movimento é maravilhoso! Tente prestar atenção na música e não no "Trio de cabelinhos iguais", que dá um pouco no meus nervos:


Caso você não tenha saído correndo ainda, vou dar lhe mais uma chance! Trio com Piano nº 4, em mi menor, Op. 90, "Dumky", do Dvorák, que, diferentemente da maioria dos Trios, tem 6 movimentos. E, olha só, é com um grupo lá de Curitiba!:


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Ainda está aí? Então vamos ouvir o Trio com Piano, em lá menor, do Ravel, numa ótima gravação:


Lindo!

Da mesma época (só que de quase 30 anos antes), temos o Trio com Piano, em sol maior, L. 3, do Debussy. Muito mais simples que o do Ravel, mas tem seu charme:


Num outro mundo, completamente diferente (geograficamente, inclusive), está o Trio com Piano do americano Charles Ives, mais ou menos da mesma época que o do Ravel que ouvimos há pouco. Apesar de sua relativa estranheza, é, em minha opinião, um grande Trio:


Outro grande Trio mais recente é o Trio com Piano nº 2, em mi menor, Op. 67, do Shostakovich. Tão melancólico, tão fantasmagórico, tão lindo:


Na categoria "estranho" também está Mozart: Adagio para Trio, do Arvo Pärt. Não é estranho com relação ao som, mas sim à concepção, pois é uma "versão" (Releitura? Adaptação? Deturpação? Sei lá, depende de quem ouve) do segundo movimento de um concerto para piano do Mozart:


Eu gosto bastante, confesso, e gosto mais a cada vez que o ouço novamente!

Para quem não conhece (e tem preguiça de procurar no IúTúbi), o Mozart é este aqui, o segundo movimento do Concerto para piano e orquestra nº 23, em lá maior, K. 488. Pode chorar que eu deixo!:


Outro ilustre desconhecido é o suíço (depois naturalizado americano) Ernest Bloch, que escreveu um Trio com Piano. Eu, porém, prefiro seus Três Noturnos para Trio:


Quer mais um desconhecido? Vamos, então, com um Trio recém saído do forno, o fantasmagórico (mais um para a coleção!) Trio com Piano nº 2, do argentino Maurico Kagel, de 2001:


Hoje teremos que ficar só no repertório piano+cello+violino, que, como já deu para notar, é imenso!, mesmo sem termos falados dos Trios de Brahms, Schumann, Tchaikovisky, Rachmaninoff, Chopin, etc, etc, etc. Terminemos, como temos terminado ultimamente, com música brasileira.

Edmundo Villani-Cortês, e suas Cinco Miniaturas Brasileiras. Existem versões diferentes para esta obra (para dueto; para quarteto; orquestra; quarteto com clarineta; quarteto com periquito, panela de pressão, zíper e buzina - exagero meu, claro, mas tá perto disso). Vamos ouvi-la, claro, na "encarnação do dia":


Não podemos deixar de fora o Villa-Lobos, claro! Ainda bem que encontrei, pelo menos, seu Trio com Piano nº 2, mas em pedaços, infelizmente:

1º movimento:


2º movimento:


3º movimento:


4º movimento:


É sempre um problema encontrar música clássica brasileira (em vídeo, em CDs, em partituras), mas vou tentar encontrar algo mais. Espere só um pouquinho!

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Ufa, encontrei o Trio do César Guerra-Peixe:


Também encontrei o Trio do Osvaldo Lacerda. Aqui vai o primeiro movimento:


E o segundo movimento:


O chato (eu!) acha que, se você tiver preguiça de ouví-lo, não vai fazer muita falta, pois a música, sinceramente, não me parece grandes coisas. Mas um pouco da culpa pode ser dos intérpretes: o segundo movimento, principalmente (na minha opinião), deveria ser bem mais rápido, mais "nervoso", menos "moinho de vento" e mais "pistão de motor", se é que dá para entender o que eu quero dizer!

Então chega por hoje, pois já estamos todos cansados. No próximo capítulo veremos (e ouviremos) Trios para outras combinações de instrumentos. Só para ficarmos com um gostinho de quero mais (espero que fique!), vamos ouvir o primeiro movimento do Trio para Piano, Violino e Trompa, Op. 40, em mi bemol maior, do Brahms. Só ele mesmo para conseguir fazer uma combinação dessas parecer tão natural:



Então tá, povo. Auf wiederhören!

sábado, 9 de novembro de 2013

A 2 é bom!

Você agora já sabe COM CERTEZA o que é música de câmara, certo? Parabéns pra você!, porque eu ainda tenho dúvidas! Mas vamos fazer de conta que a definição de "música de câmara" é simples e sem problemas e, já que é a primeira vez que iremos juntos para a câmara, comecemos só a 2 mesmo, e depois chamaremos outros para participar. Mas a 2 é bom, pode confiar!

Pode parecer que música de câmara para dois instrumentistas é a mais simples de todas, não é? Porém, devido justamente ao reduzido número de executantes, é também uma das mais complicadas. Explico-me (espero que consiga): 

Existe, na música, uma coisa chamada registro, que significa o intervalo de notas que um instrumento (ou voz) é capaz de produzir. As vozes soprano, tenor, etc, cantam em registros diferentes (mais graves, mais agudos, mais "médios", etc). Com os instrumentos também acontece a mesma coisa, e cada família de instrumentos também tem, geralmente, membros de vários registros. As cordas têm, do mais grave para o mais agudo, contrabaixo, violoncelo, viola, violino. Por falar nisso, as antigas (atualmente ressuscitadas) violas da gamba também vinham em famílias, como nessa linda foto da família Gamba passando um domingo no parque. Faltou só a toalhinha xadrez!:


Até instrumentos que acreditávamos viver sozinhos (o saxofone, por exemplo), na verdade possuem famílias muitas vezes numerosas, mas pouco conhecidas, que não saem muito de casa:


São lindas as famílias de instrumentos! Eu queria ter todos! De todas as famílias! Mas como não posso, vou voltar para o assunto original, pois arranjar um mísero instrumentinho que esteja disposto a dividir a câmara com o meu próprio instrumento já anda difícil...

Eniuêis... Se apenas dois instrumentos vão para a câmara, há apenas duas possibilidades: ou os instrumentos são diferentes, ou são iguais (dãããã). Se são instrumentos de registros iguais, vai ficar lindo, mas tudo muito parecido, sem muitas opções para se variar; são tão parecido, mas tão parecidos, que as possibilidades vão logo se esgotar. Se são de registros diferentes, vai ficar lindo também, mas são tão diferentes, tão diferentes, que corre-se o risco de um estar tocando em Vênus e o outro estar tocando em Marte, com um monte de espaço vazio entre eles.

Para se resolver esse problema, adivinha o que usavam? O nosso já velho conhecido baixo contínuo, que não só preenchia os espaços vazios como também trazia variedade à sonoridade do grupo. Esse é um dos motivos pelos quais a música de câmara do Barroco para solo ou para duo geralmente não é nem solo nem duo, e vem acompanhada do B.C. 

Porém, ai porém, no final do Classicismo o basso continuo estava desaparecendo, desaparecendo, até que desapareceu, e o repertório de música de câmara para dois instrumentos melódicos (iguais ou diferentes) praticamente desapareceu também.

Abre parênteses: instrumento melódico é aquele que, a principio, só consegue tocar uma nota de cada vez (quase todos os instrumentos), e harmônico é o instrumento capaz de tocar várias notas simultaneamente (os de teclado, os alaúdes, guitarras, violões, etc). Fecha parênteses.

Música de câmara apenas para dois instrumentos melódicos não é lá muito comum. Como estou com preguiça de procurar exemplo, nem vou tentar, e colocarei apenas 2 dos poucos de que me lembro, de época muuuuuuuito mais recente que o Classicismo. As Bachianas nº 6, para Flauta e Fagote, do Villa-Lobos (1º movimento, "Ária-choro"), para instrumentos diferentes (claro):


E o 2º movimento da Sonata para 2 Violinos, op. 56, do Prokofiev, para dois instrumentos iguais (claro de novo):

(Lindo!!!!!)

Mas agora vamos à combinação melódico+harmônico. Para a felicidade de todos os pianistas, naquela época (século XVIII) o pianoforte e o fortepiano começaram a fazer muito sucesso (para a infelicidade dos cravistas e dos demais instrumentistas, que até hoje são revoltados com o piano), e começaram a assumir a função do baixo contínuo. Mais ou menos isso, na verdade, pois o som do pianoforte e do fortepiano era mais potente e mais versátil que o do cravo e outros instrumentos de teclado antigos (à exceção do órgão, mas este estava confinado nas igrejas e teatros, e nunca foi considerado de câmara), e ele, o "pianofortista", começou a dominar a música de câmara, deixou de ser "enchimento" musical, e passou a ser protagonista.

Dessa maneira, a maior parte do repertório a 2 é para a combinação piano (ou seus ancestrais) + algum instrumento melódico. Como o piano era tão versátil e completo, os compositores o adoravam, e muitas vezes o instrumento melódico era parte dispensável da composição. Uma sonata para piano e violino do início do Classicismo podia muito bem ser tocada (e era) apenas ao piano, pois a parte do violino costumava ser apenas uma duplicação da melodia tocada pelo piano. O mesmo podia acontecer com um trio para piano, violino e violoncelo, onde o violino duplicava a melodia do piano, e o violoncelo, a linha do baixo (simplificando: aquela tocada pela mão esquerda do pianista). Claro que a sonoridade acabava prejudicada pela exclusão das cordas, mas nenhuma nota da música deixaria de ser tocada.

Como já vimos neste post, um dos fatores para tamanha versatilidade/indefinição/bagunça era o fato de se tentar apelar ao maior número possível de compradores de partituras. Os cubículos já não eram apenas aristocráticos; todo burguês que se prezasse também queria fazer música em sua própria casa, e a música de câmara dessa época, mais que todas as outras épocas, talvez, era dirigida principalmente a amadores. Os compositores faziam o possível para que suas músicas pudessem chegar ao maior número de lares, que não necessariamente tinham um cravo (ou outro instrumento de teclado) e mais um violino (ou flauta ou obóe, ou etc.), e mais um violoncelo (ou viola da gamba, ou fagote, etc, etc.). Escrevia-se música que posse passível de ser interpretada de várias diferentes maneiras, e cada câmara (ou salão aristocrático, ou tavernas, ou etc.) usava os instrumentos que tinha: "Se só tem tu, vai tu mesmo".

Os compositores conseguiram, pela primeira e última vez na história, levar música clássica ao vivo para todo mundo. A música "clássica" era tão "popular" que revistas semanais chegavam a publicar partituras como se fossem capítulos de novelas. Ó só que maravilha: toda semana você comprava uma edição de Caras e, ao invés de ganhar uma faca para churrasco, ganhava um movimento de música. No final do mês você tinha uma sonata inteirinha para tocar, além de ficar bem informado de todas as fofocas da cidade!


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Uma câmara para 2, ou 3, ou 4, ou 5, ou 6, ou 7...

Música de câmara, como a entendemos hoje, se refere àquela executada por um número reduzido de intérpretes, cada um deles executando uma "parte" da música (partitura vem daí: a parte que você toca). Pode ter, sei lá, nove músicos, mas cada um tem uma parte diferente, e ninguém toca a mesma coisa. Digamos que seja um sexteto de cordas, para 2 violinos, 2 violas e 2 violoncelos: apesar de os instrumentos estarem em duplas, cada um deles terá sua própria parte, diferente das demais (6 partes diferentes).

Mas nem sempre foi assim... Música de câmara, no princípio, era denominada musica cubicularis, e significava simplesmente que era para ser executada em recintos privados. As outras categorias eram musica ecclesiastica e musica theatralis. 

Se a música era feita para ser apresentada em locais privados, era de câmara. Podia ser instrumental, podia ser vocal. Podia ser qualquer coisa, desde que fosse executada no cubículo de alguém. Também podia ter qualquer número de intérprete, dependendo apenas do tamanho do cubículo em questão. Como os recintos privados costumavam ser menores que igrejas e teatros, geralmente os grupos também eram menores, claro, pois menos volume de som era necessário para se encher o espaço.

De acordo com esta definição os Concertos Brandenburgueses, do nosso amigo Jotaésse Bach, são música de câmara, apesar de não mais entendermos concertos como de câmara. Além do mais, cada uma das partes desses Concertos pode ser executada por mais de um músico (à exceção de algumas partes para solistas). Talvez pudéssemos chegar a um meio-termo, e dar o nome de concertos de câmara a essas criaturas. Muita gente chegou a essa mesma conclusão (saco... eu não sou único em nada...), e é comum vermos rótulos como Concerto de câmara, Sinfonia de câmara, Orquestra de câmara, Cantata de câmara, para designar a música composta para pequenos grupos onde pode haver uma ou mais partes executadas por mais de um músico. O adjetivo pequenos também é relativo, claro, pois existem orquestras de câmara com 50 - ou mais - músicos).

Com essa nova definição, porém, jogamos fora o sentido original de música "de câmara", e nada me impede, atualmente, de escrever uma ópera de câmara (existem algumas, por falar nisso): ela vai ser como uma ópera "de verdade", só que para menos instrumentos, talvez com menos cantores, um coro menor (se tiver coro, claro), ou duração menor que o padrão (que não existe). Vai ser theatralis, mas vai ser cubicularis.

Da mesma maneira, as antigas sonatas da chiesa, que são para pequenos grupos, deixaram de ser de igreja e passaram a ser consideradas de câmara, atualmente.

Mais uma complicação: se uma música necessita de dois ou mais músicos para ser executada, a consideramos (me recuso a escrever consideramo-la) de câmara, mas se tem um só, já a colocamos em outro compartimento, reservado aos solos e, ao invés de irmos à um recital de música de câmara, iremos, nesse último caso, a um recital de 'instrumento X'.

Portanto, surpresa!, chegamos mais uma vez à conclusão de sempre: música é uma bagunça!

Então, antes de falarmos de música de câmara (incrível!, o assunto nem começou ainda!), façamos um trato: vamos usar a definição mais comum, e chamemos "de câmara" aquela música para 2 ou mais instrumentistas, onde há apenas um músico para cada uma das partes. Deixemos de fora, portanto, toda a música vocal e toda a música em que há parte(s) executada(s) por mais de um instrumentista.

Agora ficou fácil, não ficou?