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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Post-It: 3 x 1 = 1

Neste post AQUI nós ouvimos o primeiro trecho do Stabat Mater do Pergolesi, numa gravação maravilhosa, lembra-se? Só havia aquele trecho no IúTúbi (daquela gravação, claro), e agora alguma alma caridosa o colocou inteiro, mas sem vídeo, só fotinhas.

Quem quiser, mesmo assim, ouvi-lo na integra, aproveite, pois não acho que vá sobreviver muito tempo por lá!


Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.

O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!

Quae mœrebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
nati pœnas inclyti.

Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?

Quis non posset contristari
Christi Matrem contemplari
dolentem cum Filio?

Pro peccatis suæ gentis
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.

Vidit suum dulcem Natum
moriendo desolatum,
dum emisit spiritum.

Eia, Mater, fons amoris
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.

Fac, ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum
ut sibi complaceam.

Sancta Mater, istud agas,
crucifixi fige plagas
cordi meo valide.

Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati,
pœnas mecum divide.

Fac me tecum pie flere,
crucifixo condolere,
donec ego vixero.

Juxta Crucem tecum stare,
et me tibi sociare
in planctu desidero.

Virgo virginum præclara,
mihi iam non sis amara,
fac me tecum plangere.

Fac, ut portem Christi mortem,
passionis fac consortem,
et plagas recolere.

Fac me plagis vulnerari,
fac me Cruce inebriari,
et cruore Filii.

Flammis ne urar succensus,
per te, Virgo, sim defensus
in die iudicii.

Christe, cum sit hinc exire,
da per Matrem me venire
ad palmam victoriæ.

Quando corpus morietur,
fac, ut animæ donetur
paradisi gloria. Amen.


Para quem ainda não se cansou, mais uma versão bem interessante, executada sem regente, com um grupo pequeno de instrumentistas, como provavelmente foi apresentada originalmente. Muito lindo também!



E, para o dia em que os vídeos acima sumirem do IúTúbi, mais uma opção, agora com uma das minhas sopranos favoritas, Emma Kirkby, e o contratenor James Bowman, também maravilhoso, apesar de eu achar que a voz dele é muito pesada para estar junto com a Emma:



Então tá, chega!

domingo, 13 de abril de 2014

Estilistas na fase oral 8: balaio de gatos 1.0



Tadinho dos bichanos. Eles não têm culpa de nada! A gente faz bagunça, e eles levam a fama...

Meu plano, originalmente, era tentar futucar a música "clássica" século a século, ordenadamente, "cartesianamente", mas, desde o final do século XIX, a bagunça é tanta que eu não me atrevo a tentar separar nada de nada. De mais ou menos 1880 (alguns consideram 1890, outros consideram 1865 - a data de Tristão e Isolda) para cá, é uma confusão de ismos sobre o qual ninguém chegou a conclusão alguma. O balaio pertence aos gatos, mas há animais de todos os tipos lá dentro:

- Neoclassissismo (que também pode ser conhecido como neobarroco);

- Pós-romantismo (e Neo-romantismo);

- Futurismo (e Bruitismo);

- Atonalismo;

- Serialismo;

- Nova objetividade ("Neo-objetivismo");

- Minimalismo;

- Expressionismo;

- Impressionismo;

- Pós-modernismo;

- Poliestilismo;

- Nova Simplicidade;


- Música espectral;

- Música concreta (e Música Eletrônica); etc, etc, etc...

Só faltaram Canibalismo e Catastrofismo... Mas espere um pouco, pois não demorarão em aparecer, aposto.

O divertido é que tem para todos os gostos. TODOS! Tem para todos, mas as diferentes vertentes costumam não se suportar! Todo mundo discute com todo mundo, todo mundo é melhor que todo mundo, todo mundo tem certeza absoluta de que o futuro a ele pertence. Carlos não amava Dora, que não amava Lia, que não amava Léa, que não amava Paulo, que não amava Juca, que não amava Pierre Boulez, que odiava toda a quadrilha...

Claro que estou generalizando, pois há (e houve) criaturas que aceitavam outros ismos além do seu(s) próprio(s). Schoenberg, por exemplo: "pai" do Serialismo, mas perfeitamente capaz de aceitar que se fizessem música de outras maneiras. Tem também o Stravinsky, que sempre foi autoritário e achava que sempre fazia melhor que todo mundo (até concordo!), mas que mudava de estilo como quem troca de roupa. A maioria, porém, vivia em clubes exclusivíssimos, onde você tinha que provar, minuto a minuto, que merecia estar em tão extraordinária companhia. As duas Guerras Mundiais (e mais a Revolução Russa) também só serviram para exaltar ânimos de todo mundo, inclusive de músicos: temperava-se a antipatia artística com antipatias políticas, nacionalistas e "raciais".

Com o tempo, porém, os clubinhos seletos deixaram de ter tanta importância assim. Ou melhor (na minha opinião): ninguém mais ouviu falar dos clubinhos (além de seus próprios sócios e amigos/inimigos). O público da nova música, de 1950 para cá, foi, cada vez mais, desaparecendo, desaparecendo, até que a música clássica "popular" foi se tornando mais antiga, mais antiga, mais antiga, ao ponto de, atualmente, se ouvir muito mais Vivaldi, que morreu há trezentos anos, que Olivier Messiaen, que estava vivo até ontem.

A música "clássica", cada vez mais, vai se tornando um museu, em mais de um sentido: não apenas nós temos acesso hoje a músicas de todas as épocas e estilos passados (de 1200 prá cá, ao menos), como os próprios compositores podem ir buscar seus materiais, referências, preferências, nas mais diversas salas do museu, juntar o que achar interessante, levar pra casa, e cozinhar seu próprio estilo.

Ó só, pra você ver, isso aqui, do Debussy, as Chansons de Charles d'Orléans, compostas entre 1898 e 1908, com seu jeito meio "pseudo-renascentista":


Ou o Frates, de Arvo Pärt, de 1997 (se não me engano), com sua influência ainda anterior, do início da polifonia ocidental, aqui em sua versão para 12 cellos:


Claro que a busca por estilos antigos nunca foi novidade; o diferencial é que o museu atual tem muito mais salas, cada uma com um acervo diferente, onde você pode ir apanhar o que bem entender. Também pode buscar material em salas fora da ala ocidental do museu. Ou criar coisa absolutamente original também, se quiser e tiver competência.

Ou seja, se anteriormente a música já era uma bagunça, nos últimos 130 anos ela virou um verdadeiro carnaval: cada um escolhe a fantasia que bem entende e sai pulando por aí. Cansou? Ano que vem pode escolher outra fantasia. Um ano você sai vestido de samurai, no outro sai de tirolesa, e estamos resolvidos. O compromisso é ser feliz!

Sinceramente? Eu adoro essa folia! Se até 1880 é difícil não encontrar música para agradar a qualquer pessoa, desde então ficou mais fácil ainda, e aqueles que dizem não suportar música do século XX não deveriam reclamar muito, pois há uma infinidade de séculos sendo reciclados para eles! Em qualquer década que procurarem eles irão encontrar uma gama de estilos tão grande que (provavelmente) um deles conseguirá contentá-los. Vá procurar!

O problema será eu conseguir me decidir sobre o que colocar aqui nos posts. Por outro lado, também não será tão difícil assim, pois, fora do círculo de amigos/inimigos particulares de cada estilo, quase ninguém se interessa por este assunto. Todo mundo conhece tudo sobre música popular do século XX (e XXI), e pouca coisa da música erudita, e provavelmente eu conseguirei apresentar algumas novidades.

Vamos, como sempre, começar com a música vocal sacra. E vamos começar com meu amigo Stravinsky (aquele que trocava de roupa o tempo todo) - aliás, ele trocava de roupa com tanta frequência que às vezes se esquecia de colocar a próxima:


Primeiro, a pequena Missa, do período que ele usava roupa neoclássica:


Também com roupinha neoclássica temos a espetacular (na minha opinião, claro) Sinfonia dos Salmos, cujo texto está AQUI:


Eu adoro Stravinksy, mas, para quem gosta de refeições menos "exóticas", aqui vai a Mass of the Children, do inglês John Rutter. Além do texto comum das missas latinas, ele incorpora poemas de Thomas Ken e William Blake, mas não os encontrei para colocar aqui:


Tem quem goste, mas eu a acho meio Mary Poppins demais para meu gosto. Muito melhor (eu acho) é o Réquiem de Guerra, do Benjamin Britten, que eu já citei AQUI. Primeiro, o trecho Requiem aeternam:


 E a obra inteira, para quem se atrever:

(Simplesmente espetacular! Acompanhe o texto AQUI,
que mistura o original latino com poemas pacifistas de Wilfred Owen)

Também linda, temos a Berliner Messe, do Arvo Pärt (todo mundo já notou que eu adoro sua música). Ela, como muitas das obras mais famosas do Pärt, é em seu estilo "minimalista-gregoriano". Este é o Kyrie:


Quem quiser, pode também assistir à missa inteira:


Quem realmente gostar pode procurar outras obras sacras dele, que existem aos montes, como o Te Deum, Missa Syllabica, 7 Magnificats, etc. Ah, tem também o Stabat Mater, para 3 vozes e 3 cordas (muitas obras do Pärt existem em várias versões diferentes, e o Stabat Mater também existe em versão para coro e orquestra), simplesmente maravilhoso. Quer ouvir um pedaço? Ajoelhe-se, primeiro:


Outro Stabat Mater lindo é o do meu amigo Francis Poulenc:


Há muita música sacra de qualidade do final do século XIX para cá, algumas mais, outra menos, conhecidas, porém a grande maioria delas (das que eu conheço, ao menos) não foi concebida para ser executada em igrejas, e muitas - ainda por cima - incorporam textos estranhos à liturgia: como o recinto "sacro" da música não é mais a igreja e sim a sala de concerto, muitos compositores não se preocupam tanto assim com a ortodoxia de seus textos.

Algumas obras sacras contemporâneas acabam encontrando acolhimento nas igrejas, como as do Pärt, mas a maioria, devido a suas implicações "políticas", raramente (se tanto) irão aparecer em contexto religioso. Uma das mais conhecidas obras sacras do século XX, Chichester Psalms, do Leonard Bernstein, por exemplo, usa os salmos na versão em hebreu, e, portanto, estão automaticamente fora do aceitável para uso na Igreja Católica. Não me pergunte se tem utilidade dentro da Igreja Judaica, pois não tenho a mínima ideia!


Tu es Petro, de James MacMillan, é uma das obras que foi encomendada para uma missa de verdade - a missa celebrada pelo papa Bento XVI em Westminster em 2010. Mesmo assim, é apenas um introitus (trecho musical que acompanha a entrada dos celebrantes), e o resto da missa foi celebrada com o bom - e velho - gregoriano.


Como esta obra é, para mim, meio "apocalipse cum filme de terror", duvido que vá entrar no repertório da Igreja, muito mais acostumada a isso aqui:


Ah, e também não podemos esquecer do Olivier Messiaen. Quase tudo (ou tudo) que ele faz, mesmo quando não é sacro, é sacro. Um exemplo de sua música "não-sacra mas sacra" são as Trois Petites Liturgies de la Présence divine; obviamente religiosas, mas cujo texto foi escrito pelo próprio Messiaen e, portanto, secular.


Outra criatura cuja obra é profundamente religiosa (mesmo quando não é sacra), é a Sofia Gubaidulina. Muitas obras suas, porém, são "sacras sacras", e quem tiver coragem suficiente pode enfrentar sua assustadora, assombrosa, maravilhosa Paixão Segundo São João. Não encontrei o texto em lugar algum, e o russo, para mim, parece russo... De vez em quando aparece uma legenda em alemão, então dá para saber, pelo menos, que é sobre Jesus Cristo! Mesmo assim, vale a pena:


Depois dessa catástrofe (Ei! Apareceu uma das "escolas" que faltavam, Catastrofismo!), está na hora de terminarmos o post, como quase sempre, com compositores brasileiros. Um dos mais famosos é o carioca Ernani Aguiar, cujo Salmo 150 é cantado por todo e qualquer grupo coral, pelo mundo afora. Pode procurar no YT! De Sorocaba a Taipei, passando pelos Estados Unidos, Europa, Rússia, todo mundo já cantou/está cantando/está ensaiando/quer cantar esta pequena obra:


[Alleluja] Laudate Dominum in sanctis ejus; laudate eum in firmamento virtutis ejus.
Laudate eum in virtutibus ejus; laudate eum secundum multitudinem magnitudinis ejus.
Laudate eum in sono tubae; laudate eum in psalterio et cithara.
Laudate eum in tympano et choro; laudate eum in chordis et organo.
Laudate eum in cymbalis benesonantibus; laudate eum in cymbalis jubilationis.
Omnis spiritus laudet Dominum! Alleluja.

O Camargo Guarnieri não era lá muito religioso (ou, pelo menos, sua obra não dá muita ideia de que fosse), mas sua Missa Diligite é linda! Só encontrei, infelizmente, vídeo para o trecho Sanctus. Se alguém aqui em Brasília quiser apresentá-la na íntegra (Rá! Vou esperar deitado!), eu agradeço:



Enquanto espero, boa noite!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Estilistas na fase oral 5 : século XIX

Aimeudeus... Vamos lá, a mais outro capítulo de nossa saga interminável, mostrando um pouco da música do século XIX. Vai ser difícil descobrir coisas diferentes para colocar aqui neste post, mas vou tentar, prometo!

Claro que este será um post (quase) desnecessário, pois todo mundo já conhece bilhões de exemplos dessa época. De Schubert a Rimsky-Korsakov, passando por Berlioz, Chopin, Liszt, Verdi, Wagner, Tchaikovsky, este é o período mais popular de toda a história da música. Ao mesmo tempo, por ser tão popular, é um dos que mais sofrem preconceitos, e uma das espécies mais comuns de estilistas é justamente o de pessoas que não suportam música do século XIX. 

No post sobre Classicismo eu disse que a música vocal de câmara não era, comparativamente, muito importante. Agora, no século XIX, ela volta com toda a força, com a proliferação de chansons francesas, lieder alemães, além de outras formas vocais de câmara (canções típicas dos diversos países, música coral, serenatas, etc). Para compensar, parece que a música vocal de igreja é que acabou ficando em segundo plano. Ainda se produzia missas e outros tipos de música sacra vocal (Stabat Mater, Pater Nostri, Ave Marias, etc), mas, no todo, é um estilo que não atraía muito a atenção dos compositores, que reservavam suas forças para a música sinfônica ou de câmara, ou para a ópera, mais popular do que nunca.

As missas do Classicismo eram muito criticadas por serem alegres demais, e as missas do século XIX, como operísticas demais. Ó só como não deixam de ter razão:

Agnus Dei, da Petite Messe solennelle, de Gioachino Rossini:


Escrevia-se óperas demais, e era difícil escapar dessa influência. Além do mais, o século XIX, dominado pelo Romantismo, era o século do subjetivismo, do compositor individual, único, especial, do "eu, eu, e só eu mesmo", o que, na minha opinião, não combina muito com a música sacra. Apesar de tudo, muita coisa boa existe, se você souber onde procurar (no IúTúbi, claro).

Deutsche Messe, D. 872, do Franz Schubert, escrita num estilo propositadamente simples, para ser cantada pela própria congregação durante o culto, e cujo texto são hinos (em alemão) de autoria Johann Philipp Neumann:


Outra obra (relativamente) desconhecida de Schubert é seu Stabat Mater em fá menor, D. 383, simplesmente deslumbrante. Diferentemente da maioria, essa versão usa um texto em alemão (de Friedrich Klopstock) adaptado do original latim. Aqui, só a primeira parte da obra:


Também deslumbrante, e também (quase) desconhecido, é o oratório Christus, S. 3, do Franz Liszt, que, apesar de suas mais de 3 horas de duração, e de ser para grande orquestra, solistas e coro, consegue, ainda assim, ser intimista. Quem quiser se aventurar a ouvi-lo inteiro, aqui estão as três partes, sem libreto, infelizmente:

- 1º parte, Oratório de Natal:


- 2º parte, Epifania:


- 3ª parte, Paixão e ressurreição:


Outra maravilha escondida é o oratório L'Enfance du Christ, do Hector Berlioz:


(O libreto está AQUI, para quem quiser acompanhá-lo)

Algumas obras sacras do século XIX acabaram entrando no repertório (ou na coleção de CDs dos ouvintes), como o Requiem e as Quattro pezzi sacri (ambos do Verdi), o Requiem do Fauré, o Requiem Alemão, do Brahms, as Missas do Bruckner. A maioria, porém, praticamente sumiu na poeira no tempo, infelizmente. Mas a razão não é apenas musical: a música para a igreja, depois de tantas "reformas" e "contra-reformas", principalmente no século XX, foi se tornando cada vez mais simples, mais comum, mais desimportante, totalmente irrelevante para a história da música. Resultado: muito da música sacra séria deixou de ter uso litúrgico, migrando para a categoria música para o teatro, que, por sua vez, já estava abarrotada de toneladas de música sinfônica e operística. Tadinha da música sacra... não sobrou espaço (nem tempo) para ela.

Vamos, porém, tentar resgatar mais alguns exemplos!

Charles Gounod, Messe solennelle à Sainte Cécile:


Tem quem goste, mas, na minha opinião, parece a versão musical das flores de plástico que enfeitam tantas igrejas hoje em dia... Muito mais importante, lindo, maravilhoso, é o oratório Les Béatitudes, de César Franck. Aqui, um trecho da "Septième béatitude: Bienheureux les pacifiques":


E, aqui, o oratório inteiro. A gravação não é lá grandes coisas, mas foi a única versão integral que encontrei:


Também foi quase impossível encontrar o libreto online, e a única opção que descobri foi esta AQUI. Les Béatitudes é umas das obras mais importantes do César Franck, e uma das obras sacras mais espetaculares do século XIX, e a dificuldade em encontrá-la na Internet é uma boa indicação do desinteresse quase geral nesse repertório. Ainda bem que aqui, pelo menos, a gente consegue conhecer um pouco dele!

Da categoria "menos desconhecida mas também quase esquecida", temos o Stabat Mater do tcheco Antonín Dvorák, espetacularmente lindo (e dramático). O primeiro trecho (para se ouvir de joelhos!) está aqui: 


E ele inteiro, aqui:


Para terminarmos o post de hoje - antes de chegarmos à conclusão de que música sacra era o gênero mais popular do século XIX - vamos ouvir só mais uma obra: o lindo, calmo e feliz Oratorio de Noël, Op. 12, de Camille Saint-Saëns, que, infelizmente, também sumiu na poeira dos tempos.



Outro dia voltaremos com os demais gêneros de música vocal do século XIX, pois hoje já estamos com o sacro cheio...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Estilistas na fase oral 3 : Classicismo

Credo... Se continuar assim acho que vou levar um ano inteiro para terminar esse assunto... Também, quem me mandou inventar de mostrar exemplos de TODOS os séculos? Quem é que precisa disso? Enfim... Já que comecei, o jeito é terminar.

Senão, vejamos: Classicismo.

Acho (!) que todo mundo conhece Mozart e Beethoven; eles, portanto, estão proibidos de aparecer por aqui. Essas criaturas são tão espetaculares, mas tão espetaculares, que é difícil escapar delas quando se fala em Classicismo. Como estamos tratando, nestes posts, apenas da música vocal, é ainda mais complicado evitá-los! Quem é que consegue pensar em ópera desse período sem se lembrar imediatamente de Mozart? Ou pensar em música vocal sacra sem pensar nas missas e no Requiem do Mozart ou na Missa Solemnis do Beetho? Mas aproveitaremos que eles estão verboten e ouviremos coisas diferentes.

Um dos poucos compositores dessa época que ainda sobrevivem fora dos círculos de "especialistas" é o meu adorado Franz Joseph Haydn, uma das criaturas mais espetaculares, importantes e simpáticas que já existiram na música clássica. Mas até mesmo Haydn, hoje em dia, é mais falado do que escutado. Quem é que conhece bem suas sinfonias e seus quartetos de cordas, de onde Mozart e Beetho tiraram quase todas suas ideias?

Assim como Haydn, inúmeros outros compositores sofreram a mesma sorte. Esquece-se que Mozart e Beethoven representam o final desse período; eles acabaram com o Classicismo (no sentido de moer, de arrebentar, de f.... completamente o estilo, e depois deles o Classicismo não prestava pra mais nada!). O próprio Haydn, depois de conhecer Le Nozze di Figaro e Don Giovanni, recusou-se terminantemente a escrever outra ópera. Ele tinha total consciência de que era impossível competir com Mozart, e só volta à música vocal para compor seus oratórios A Criação e As Estações, um gênero no qual o Mozart nunca fez algo de importância.

Mas existe um carrada de compositores anteriores à "Dupla Dinâmica", que são os verdadeiros responsáveis pela existência do Classicismo: Haydn, principalmente, e mais o Carl Philipp Emanuel Bach,  o Johann Christian Bach, Niccolò Jommelli, François-André Philidor, Antonio Soler, André Gréty, Giovanni Paisiello, Luigi Boccherini, Domenico Cimarosa, Luigi Cherubini, Johann Stamitz (junto com seus filhos Carl e Anton), Christoph Willibald Gluck, etc, etc, etc. Todos absolutamente famosos à época, e quase todos apenas verbetes de dicionários de música, atualmente. Há também aqueles que desapareçam inclusive da maioria dos dicionários: Henry-Joseph Rigel, Ferdinando Paër, Gaetano Brunetti, Joseph Leopold Eybler, Andrea Luchesi, Tommaso Traetta, Johann Albrechtsberger, Giovanni Battista Viotti, etc, etc, etc. Tadinhos...

Ainda bem que a cada dia, em algum lugar do mundo (à exceção de Brasília, claro), ressuscita-se parte deste repertório desaparecido. Ninguém aguenta mais ouvir eternamente as mesmas coisas!  Tá certo que a Quinta Sinfonia do Beetho é linda, mas não é necessário ouvi-la 50 vezes ao vivo! E quem é que lê Os Miseráveis tantas vezes assim? Eu posso adorá-lo, mas também me divirto com Agatha Christie!

Então chega de falar e vamos ouvir alguns ilustres quase-desaparecidos, começando, como sempre, pela música sacra vocal, com o Requiem do Jotacê Bach:

Aqui, só o início


E aqui, ele completo


Mas eu não poderia deixar passar a chance de colocar a Missa in tempore belli, em dó maior, H. XVII:9, do Haydn, que eu adoro:


E agora, um dos totalmente desconhecidos,  Henry-Joseph Rigel, com seu oratório A Destruição de Jericó:


E um dos brasileiros do chamado Barroco Mineiro - que na verdade pertence ao Classicismo - José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, com o lindíssimo Kyrie da Missa em Fá Maior:


(Quem quiser ouvir a missa inteira, tem todos os trechos AQUI)

Já que entrei no assunto música brasileira, vamos aproveitar para ouvir outro "mineiro-vienense", o padre José Maurício Nunes Garcia, com seu (maravilhoso) Requiem mozartiano, numa (maravilhosa) interpretação da Orquestra Filarmônica de Helsink (Tá vendo? Brasília não presta nem para música brasileira! Até a Finlândia ganha de nós nesse quesito! Enquanto eles ouvem música brasileira em Helsink, aqui a gente sink to Hell...):


E agora eu fiquei bravo de novo. Não vou nem continuar com o assunto de hoje. Também já temos aí em cima algumas horas de música para nos ocupar por alguns dias, e depois voltaremos com a música vocal cubicularis e theatralis do Classicismo.

Bá-ái!